OPINIÃO DA FOLHA
Um mundo sem lei
A prisão de militares da chamada coalizão (Estados Unidos e Grã-Bretanha) e sua apresentação para a TV provocou a mais veemente resposta norte-americana, com a exigência do respeito às normas da Convenção de Genebra pelo Iraque. Como se sabe, a citada convenção trata do respeito que deve ser dado aos soldados aprisionados durante as guerras.
A questão toda, porém, remete à própria ilegalidade do conflito. A guerra, por si, é uma arbitrariedade. Os homens do século 20, pretendendo ser seres civilizados, criaram normas para torna-la menos chocante, incluindo aí o tratamento aos prisioneiros. Quando, porém, a deflagração do conflito, como aconteceu agora, decorre de uma atitude flagrantemente ilegal, sem qualquer respaldo ético ou moral, é complicada qualquer discussão sobre a reação dos que foram (e continuam sendo) atacados, no caso os iraquianos.
O que se deveria reclamar, basicamente, seria a declaração de ilegalidade no ataque em si, com a exigência, pelo Conselho de Segurança da ONU, da suspensão dos ataques, incluindo até, quem sabe, indenização aos agredidos. Isto ocorreu muitas vezes no passado, inclusive quando o Iraque invadiu o Kuwait. A ONU, na época, se posicionou, exigiu a retirada iraquiana e, no fim, autorizou a ação militar que resultou na desocupação do Kuwait, no quase aniquilamento da máquina de guerra iraquiana e na imposição de sanções que ainda vigoram contra aquele país.
Ocorre que a própria atitude dos Estados Unidos acabou com a mínima possibilidade de uma ação da ONU. Os analistas já comentam que diante dos fatos, os norte-americanos converteram as Nações Unidas em uma simples ONG, sem qualquer força ou capacidade para mudar os rumos da História. Uma resolução do Conselho de Segurança condenando os Estados Unidos é impensável, até porque os norte-americanos também podem vetar qualquer decisão que não lhes agrade. Sanções, igualmente, estão fora de cogitações. Nem se pode esquecer não só que a sede principal da ONU está nos Estados Unidos mas que a maior parcela do orçamento do organismo vem dos norte-americanos.
Nesta nova realidade que remete a civilização à lei da selva, não há como pensar em cobrar do Iraque algum tipo de atitude baseada na lei de guerra. Não há mais leis, senão a do mais forte, conforme o que os Estados Unidos estão tentando impor no Iraque. Assim, vão ter que continuar agredindo e, paralelamente, sofrendo a reação absurda mas compreensível da parte fraca que está sendo violentamente atacada.





