OPINIÃO DA FOLHA
Desequilíbrio do terror
Quando a União Soviética desmoronou, marcando o fim da chamada ''guerra fria'', o mundo respirou aliviado. Era também o fim do chamado ''equilíbrio do terror'', com as duas superpotências mundiais mantendo a Terra em suspense, ameaçada por uma eventual destruição provocada face a uma eventual deflagração de um conflito entre ambas.
O mundo estava entrando em nova era de tranquilidade, é o que se pensou. Os últimos acontecimentos, porém, soterraram o sonho e produziram uma nova e mais apavorante realidade. Em lugar do ''equilíbrio do terror'', a Terra vive, agora, o ''desequilíbrio do terror'', com a única superpotência existente resolvendo impor sua lei sobre o planeta.
Quem viu o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, anunciar o ultimato ao presidente (ou ditador) do Iraque, determinando que Saddam Hussein, sua família e auxiliares deixem o país, em 48 horas, sob pena de sofrer um ataque militar, ficou, no mínimo, assustado. Com que direito o dirigente de uma nação decide que o líder de outra deva deixar o cargo e o país? Se a ONU desse o aval para uma ação militar como ocorreu em 1991, quando o Iraque invadiu o Kuwait a situação seria diferente.
Entretanto, importa observar que o quadro hoje é muito diverso do que se viu no final do século passado. Na época, Saddam Hussein agiu de modo ilegal ao invadir e tomar um país soberano. Tudo o que se fez, então, foi uma ação defensiva em que a ONU tomou o partido de um de seus membros, injusta e abusivamente atacado. E tudo o que ocorreu depois foi consequência, inclusive as pesadas sanções a que o Iraque está submetido até hoje.
Neste momento, porém, o mundo não entendeu que haja motivos para atacar o Iraque. A ONU já agiu contra outras nações, pressionando-as, como ocorreu em relação à África do Sul e sua inaceitável política do ''apartheid''. Marginalizado pelo mundo, o regime racista sul-africano caiu, mas sem que outra nação interviesse militarmente.
O que George W. Bush está criando agora é uma nova política, totalmente inaceitável e monstruosa. Hoje o Iraque, amanhã quem? Quando chegará o dia em que Bush dirá para Álvaro Uribe deixar a presidência da Colômbia, porque não domina o narcotráfico, ou mandará Luiz Inácio Lula da Silva mudar para a Arábia, porque o Brasil usa mal sua água? É o desequilíbrio do terror, mais assustador do que a antiga ''guerra fria''.





