OPINIÃO DA FOLHA
Tudo começa na quinta-feira
O tambor de marcação que orienta a coesão na avenida destes dias liberados para a folia, cala-se na quarta-feira de Cinzas para que o país inicie a indicação da cadência de um ano que continuará difícil. Será o primeiro pós Reinado de Momo sob a regência popular petista num país onde tudo começa depois do Carnaval. Então, deve-se começar.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva mostra disposição para isso, pois decidiu ficar em Brasília recarregando a bateria depois das batalhas da campanha e dos primeiros 60 dias de mandato. Não que ele esteja exaurido. É que é a sua primeira vez. Lula estará enxuto e pronto depois de algum ócio que eventualmente será quebrado pelos mais próximos, algum churrasco e algum bate-bola e virá na quinta-feira com a gana assegurada por seu ideal.
Lula já quebrou lanças na sua gestão, quer nas questões ligadas ao estabelecimento da sua base aliada, cuja harmonia é necessária para tudo, quer na acomodação dos humores, desejos e notáveis diferenças intestinas no seu Partido dos Trabalhadores. E esses desafios, claro que próprios do primeiro presidente da República brasileiro genuinamente da esquerda são todos para que Lula encaminhe as suas tão sonhadas propostas de reformas.
O presidente, que já chamou os 27 governadores e lhes disse que sem as reformas não dá, agora deverá percorrer o país conversando diretamente com eles e outros políticos em seus Estados. Lula vai reforçar a defesa da necessidade de se começar as mudanças pela reforma da Previdência e tributária. O país quebra se os dois setores continuarem como estão.
O ano do país que começa a funcionar depois do Carnaval não será mesmo fácil e se fosse, aqui não seria o Brasil, com históricos e crônicos desajustes no seu samba-enredo atravessado, descompassado, formado pelo seu sistema previdenciário social, nas suas regras injustas para cobrança de tributos e impostos que matam a classe produtora.
Neste Carnaval, outros blocos do barulho estão na rua para fazer o melhor possível para nada dar certo. A alta do dólar, por exemplo, que enriquece a poucos e aniquila quem está sob seus tacões, entra na avenida no segundo mês de Lula demonstrando que está afinado contra a economia normal, não especulativa. A ameaça de um conflito EUA-Iraque, que é outro carro nada alegórico, desestabiliza qualquer projeto.
A violência é outra ala desse conjunto de atrocidades a que a sociedade está submetida. Não se sabe se o balanço pós-Carnaval no Rio de Janeiro vai revelar que a ex-Cidade Maravilhosa ficou menos violenta sem Fernandinho Beira-Mar, preso em São Paulo, ou se haverá destruição comandada pela guerrilha urbana criminosa que age sob comando da besta dominada pela droga.
O país já atravessou centenas de crises, durante as quais o PT, fundado há mais de 20 anos, dava-se muito bem, pois era oposição sistemática apontando os erros e as soluções; esta é a primeira vez que o PT segura o leme. Agora, o país que vai começar a trabalhar depois do Carnaval espera que os petistas saibam mesmo, como estão demonstrando, abandonar definitivamente a fantasia para cair na dura realidade da reconstrução nacional.





