O papel de cada um
A crise tem pelo menos um saldo positivo e animador. Ela mobiliza, cria possibilidades de negociações entre pontas contrárias de uma cadeia, estimula, enfim, acordos. Jamais, porém, imaginar que para estas condições fluirem haja necessidade de crise. O desejável seria que também em situações normais a mobilização em busca de alternativas melhores dos que as apresentadas fossem até corriqueiras. Mas como esta prática não faz parte da cultura nacional, que se somem esforços ao menos nos períodos de aperto, como lições a serem assimiladas e posteriormente exercidas constantemente.
A produção e o consumo de produtos básicos para a cozinha, a higiene e a limpeza, uma cadeia que envolve variados segmentos, é atualmente um campo fértil para a ocorrência de entendimentos entre seus participantes. Da pequena à grande indústria ao pequeno e grande consumidor de varejo, surgem manifestações indignadas devido ao elevado custo de produção e consequentemente de venda dos gêneros de primeira necessidade. Instabilidade econômica e alta do petróleo, que por sua vez desencadeia aumentos em praticamente tudo o que se consome e se necessita em termos de serviços, empurram os preços para cima, com reajustes ocorrendo quase que diariamente e colocando em capacidade total de uso a já conhecida máquina remarcadora dos estabelecimentos de varejo, cuja utilização foi recorde no período da disparada inflacionária, menos intensa nos primeiros anos do Real e perigosa a partir do segundo semestre do ano passado.
Nem todos os segmentos desse elo já acordaram para a necessidade de acertos entre as partes, de forma a facilitar o consumo e manter o nível de produção. Mas boa parte se manifesta e se diz presente. Dentre os exemplos merecedores de destaque, a edição de ontem da página Consumidor, no caderno Folha Economia, mostra a iniciativa de supermercados que abrem mais espaço para os produtos regionais, visto que estes, não só por economia de transporte mas por não deterem marcas famosas, ofertam produtos de boa qualidade a preços mais em conta. A prática, antes mais comum em hortifrutigranjeiros, agora torna-se constante em segmentos de produtos não perecíveis. Premia-se assim a produção regional, apertando o espaço dado por puro hábito às chamadas griffes. Dá-se por outro lado a oportunidade do consumidor buscar produtos mais baratos e de qualidade igual ao das grandes marcas. Isso representa avanço nessa relação que começa na produção, passa por uma sequência de intermediários e chega ao varejo já com todos os custos de um percurso longo embutidos.

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