OPINIÃO DA FOLHA
O risco da neurose inflacionária
Havia em dezembro do ano passado uma ''intenção'' fechada entre a entidade que representa os supermercados paranaenses e uma associação de donas de casa, também de abrangência estadual, para que os preços de alguns produtos básicos fossem segurados. À época, o setor empresarial prometeu negociação após as festas de final de ano, supondo-se acordos já em janeiro. Hoje, no dia 5 de fevereiro, o consumidor acompanha quase que diariamente a escalada dos preços de itens de primeira necessidade, da alimentação aos produtos de higiene e limpeza, o que faz lembrar o infeliz período do avanço inflacionário, cujos efeitos para a economia doméstica a maioria da população prefere apagar da memória.
Existe uma outra negociação em efeito, com objetivo parecido, envolvendo a mesma associação dos supermercadistas e a entidade que representa os fornecedores. O impasse, por enquanto, é o que se tira das conversas, visto a dificuldade de ambos os segmentos encontrarem formas de amenizar os impactos das constantes altas. Já se disse neste espaço e repete-se: os preços de alguns itens sobem da noite para o dia. Agora, conforme pode ser conferido em reportagem publicada ontem, no caderno Folha Economia, novos aumentos estão previstos, em consequência do reajuste nos preços do plástico, ocorrido anteontem. O material compõe a maioria dos produtos de supermercado, seja no próprio item, seja nas embalagens. E o que se anuncia é que aumentos nesses produtos serão inevitáveis, descartando-se qualquer possibilidade de negociação.
Por outro lado, observa-se em alguns estabelecimentos iniciativas das gerências locais para baratear o custo das mercadorias. Largamente adotada nas seções de hortifrutigranjeiros, a opção de oferecer verduras, frutas e legumes produzidos na própria região onde está instalado o supermercado elimina alguns custos adicionais, como o de transporte de longa distância. Praticamente todas as redes também definiram um dia da semana para ofertas de hortifrutigranjeiros. Empurrados pela concorrência, pelo menos neste segmento as promoções têm beneficiado os consumidores.
Mas é preciso mais. Infelizmente, estender medidas parecidas ainda é impossível, pois mesmo o custo elevado não interfere na preferência do consumidor por determinada marca de detergente, sabão, em pó, esponja de aço ou o que quer que seja. Nesta parte, mais complicada, cabe a interferência do governo e não só com o acerto da economia, esta que, instável, puxa a maioria dos preços para cima e alimenta a especulação. Pois compra-se o desnecessário em grande quantidade, só pelo fato deste estar mais barato. A situação atual, portanto, abastece a neurose inflacionária. A economia não deve funcionar atrelada aos atos do governo, mas neste caso, quando se exige soluções urgentes e rigorosas, aí está o papel do governo.





