OPINIÃO DA FOLHA
O ser humano em primeiro lugar
As três comissões formadas nos Estados Unidos para investigar a causa do acidente do ônibus espacial Columbia, no sábado, têm missão muito mais complexa do que apenas saber o que provocou a desintegração da nave em pleno espaço, alguns poucos minutos antes da aterrissagem. Respostas técnicas não bastam, eis que apenas se comprovará o que já é suspeito, como a versão da placa de proteção térmica que provavelmente se desprendeu e teria batido na asa do lado esquerdo, no lançamento do ônibus espacial, em 16 de janeiro.
O que é preciso ser investigado, paralelamente, é a causa da morte das sete pessoas que estavam no Columbia e retornavam para suas casas após uma missão importante. Notícias pouco difundidas pela imprensa norte-americana, mas que ganham espaços em jornais e informativos de tevê de alguns outros países, denunciam a pouca valorização dada pelo programa espacial dos Estados Unidos ao ser humano. Uma das versões aponta que as mortes poderiam ser evitadas antes do caminho de volta do Columbia, pois já se suspeitava que a nave poderia apresentar problema grave no trajeto rumo à Terra. Operações no espaço para o transporte dos pesquisadores em outra nave teriam sido abortadas, por medida de economia. Trata-se de uma versão, mas não se trata de um boato. E como tal, ela deve ser objeto de investigação.
O governo norte-americano reduziu recursos para as missões espaciais, mas quer que elas sejam realizadas. A política de George W. Bush é de continuar na frente das demais potências, inclusive na exploração do espaço. Como também na guerra, porém com uma diferença de efeito fundamental: o conflito armado tem recursos, como mostra reportagem que a Folha publica hoje na página de mundo.
Assim, não se condenaria o corte de recursos para a viagem do Columbia ou de qualquer outra nave. Entende-se que o programa espacial pode ser prorrogado, para haver prioridade em projetos cá da terra. Mas é condenável e revoltante saber que por economia se mata. Boa parte dos resultados das pesquisas feitas pelos sete astronautas do Columbia já estão em poder da Nasa, a agência espacial norte-americana, pois os dados colhidos são instantaneamente transmitidos. São, entretanto, pesquisas sem conclusões. Por mais que outros cientistas terminem os trabalhos iniciados pelos mortos do Columbia, o mundo ficará a cobrar: a corrida espacial, por mais extraterrestre que pareça, deve valorizar o homem.





