OPINIÃO DA FOLHA
O começo do Fome Zero
Uma das primeiras ações concretas do governo federal nestes primeiros dias de gestão é o programa Fome Zero, que será anunciado hoje em Brasília. Com denominação expressiva e marcante, ainda hoje o programa causa equívocos em alguns brasileiros, sobretudo quanto aos objetivos propostos pelo governo. A base é o incentivo ao desenvolvimento econômico regional.
Não se trata de um programa de distribuição de cestas básicas para os cerca de 30 milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza. A linha básica é ensinar a pescar e não dar o peixe, embora em muitas comunidades a necessidade de eliminar a fome venha antes da de criar condições para as populações obterem renda através de alguma atividade. Tanto que cada família beneficiada receberá cartão disponibilizando R$ 50,00 para a compra de dieta.
Talvez por culpa de equívocos uma famosa modelo nacional tenha doado apoio em cifras para o Fome Zero, acreditando estar contribuindo desta forma com a erradicação da miséria no País. Quando, na verdade, o Fome Zero é uma ação que depende mais de conscientização do povo do que de donativos em espécie. Claro que recursos, como os destinados pela modelo, ajudam a desenvolver projetos dentro do proposto programa. E só por isso merece aplausos a personalidade do mundo da moda. Seu ato pode levar outras pessoas, em situação de conforto financeiro, a financiarem pequenas ações, mas de efeito duradouro.
Outro equívoco que se comete e este por parte dos próprios envolvidos no programa é o da relação entre a produção e o consumo, principalmente nas localidades onde os hábitos culturais interferem negativamente em áreas como o da alimentação. Em Guaribas, no Piauí, uma cidade do semi-árido nordestino com o terceiro pior Índice de Desenvolvimento Humano do Brasil, pretende-se incentivar o consumo de leite de cabra, porque ali a criação desses animais é uma das fontes de renda da comunidade. O produto tem forte teor nutricional, mas a população local tem restrições quanto ao consumo. E já que o Fome Zero pretende resolver o problema nutricional com o desenvolvimento econômico, o coordenador local do programa enxerga soluções para ambas as deficiências na produção e no consumo localizado.
Engano, porque mesmo superada a restrição pelo leite caprino, restará ainda uma relação entre produção e consumo limitada a uma atividade de sobrevivência. E, assim, apenas se estará combatendo a desnutrição, ficando em aberto o objetivo de estabelecer formas de estimular o ganho. Transportar o leite caprino para outras regiões consumidoras, desde que seja in natura, ainda é inviável. Antes disso, o País precisa melhorar o transporte, inclusive para baratear o seu custo. Desta forma, corre-se o risco de criar expectativas difíceis de serem concretizadas. Os produtores de frangos alimentarão a esperança de aumentar as vendas, o mesmo acontecendo com os horticultores, os pecuaristas, os pequenos sitiantes. E, mais uma vez, estará sobrando produção, sem ter quem consumi-la. O Fome Zero é um programa. Mas colocá-lo em prática exige sabedoria dos coordenadores locais.





