OPINIÃO DA FOLHA
Equívoco dos cartelistas
Por enquanto no discurso, mas com ampla possibilidade de ser transformado em prática, a cruzada que o governo federal inicia contra o cartel, através do secretário de direito econômico, Daniel Goldberg, é mais uma medida com força de decisão política assumida pelo governo Lula nestes primeiros dias de gestão. Uma força-tarefa envolvendo a Advocacia Geral da União e a Polícia Federal deverá estar a postos nos próximos dias para dar combate as empresas envolvidas em práticas abusivas contra o consumidor.
Quais seriam elas, no atual momento? Oras, desde a campanha de 2002, em seus dois turnos, muitos setores da economia aproveitaram o período de ''fim de festa'' da era Fernando Henrique Cardoso para abusar espoliativamente do cidadão brasileiro. Os combustíveis, com processos abertos em várias comarcas contra alguns proprietários de postos, é um exemplo. Agora, na briga entre supermercadistas e fornecedores, não se sabe quem é que está com a razão, se o supermercado que repassa as altas quase que diariamente aos preços dos produtos, se os fornecedores que também assumem aumentos da indústria e os repasse ao varejo, ou se a indústria, com o velho argumento da alta do dólar nos últimos meses e consequente encarecimento da matéria-prima. A única certeza, infelizmente, é que a ponta mais frágil dessa cadeia, o consumidor, é que se vê obrigado a assumir a cada ida ao supermercado reajustes que são feitos do dia para a noite.
Polícia Federal e Advocacia Geral da União foram convocadas pelo secretário Goldberg. Pela proposta, a PF poderá até se valer de escuta telefônica, na tentativa de colher provas contra empresas que se valem do cartel, pois o secretário justifica que é muito difícil detectar um cartel somente com base em análises econômicas. Sendo assim, os cartéis passam a ser caso de polícia e seus praticantes, após devidamente julgados, serão criminosos.
E não só aqueles de setores distintos, em que tais práticas são quase que evidentes, como o do combustível, principalmente, que tem sido o exemplo mais corriqueiro do crime de cartel. Os setores de cimento e aço, conforme anunciou Goldberg, também estão na mira da Secretaria de Direito Econômico. Como também a ação, que não se limitará somente aos cartéis, mas se estenderá às práticas abusivas, talvez o que esteja ocorrendo neste momento com a indústria, o atacado e o varejo dos produtos básicos de cozinha, limpeza e higiene.
Já era hora. E se alguém pensou que na transição de governo e nos primeiros dias da era Lula os abusos passariam despercebidos, está enganado esse empresário. O povo pediu nas urnas mudanças e o presidente eleito estimula sua equipe de governo a agir.





