OPINIÃO DA FOLHA
Produtor ganha menos,
consumidor paga mais
Números levantados por este jornal e publicados em reportagem no caderno Folha Economia causam estranheza no consumidor. O consumo de carne bovina sofreu queda de 20% no Paraná neste início de ano, consequência do calor e da mudança de hábitos durante as férias, conforme estima o Sindicato da Indústria de Carnes e Derivados (Sindicarne). A previsão da entidade é de 70 mil cabeças de animais abatidos por mês no atual período, contra a média de 170 mil cabeças mensais no final do ano passado. Outro valor importante que causa indagações: a cotação do boi gordo caiu 2% nos últimos 15 dias.
A previsão é pouco otimista para os criadores, pois especialistas calculam que o aumento na oferta de animais terminados nas próximas semanas pressione ainda mais os preços para baixo. Melhor período, para quem produz, somente daqui a cinco meses, por volta de junho, uma vez que se aposta na entressafra.
Os pecuaristas perdem com esta situação. O atacado registra queda de preços abaixo da do boi gordo, com os cortes traseiros caindo de R$ 4,20 por quilo para R$ 3,90 e os dianteiros de 2,80 para R$ 2,50 o quilo.
A tendência normal seria dos reflexos já estarem na mesa do consumidor paranaense, pois o produtor, por uma circunstância do mercado, está vendendo por menos aos frigoríficos, que por sua vez cobram menos. Mas rompe-se uma cadeia quando se percebe que o consumidor continua pagando os preços de antes. A reportagem de Folha Economia consultou alguns estabelecimentos de varejo e concluiu que o valor é o mesmo de dezembro do ano passado, quando o pecuarista ganhava mais e o atacado cobrava mais.
A anormalidade, infelizmente, é consequência de uma voracidade selvagem, numa ótica de quem não sabe aproveitar as variantes do mercado para manter o negócio com o mesmo porcentual de ganho. Para esses, é melhor tentar enganar o consumidor, acreditando que a maioria deles não acompanha e desconhece por completo as coisas que rodeiam os negócios. Assim, desprezam a lei da oferta e da procura. Prejudicam não somente a si próprios, quando apostam na venda com maior margem de lucro e imaginam estar apenas explorando a ponta mais fraca de suas atividades, que é o consumidor final, aquele que leva a carne à mesa de sua família.
Mas enganam-se. O produtor, que hoje recebe menos, é o primeiro a tornar evidente que algo está errado. E, fatalmente, o consumidor, quanto mais caro o produto, consumirá menos. E quem usa a lei do menor esforço estará, por culpa da voracidade, causando danos a todos.





