Contra interesses específicos
A reforma do sistema previdenciário brasileiro vai exigir do governo federal mais do que empenho e disposição política para que possa ser feita da maneira como foi proposta, ainda em período de transição, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em resumo, a proposta central é de igualar a aposentadoria do trabalhador da iniciativa privada e do servidor público das três esferas, de forma a configurar a isonomia que por décadas cria uma relação injusta entre as duas diferentes categorias de profissionais. Hoje, o aposentado proveniente da iniciativa privada recebe renda cercada por um teto e ainda assim de valor abaixo do que recebia na ativa. A aposentadoria do servidor público é integral.
Neste final de semana, antes da primeira viagem da comitiva do governo federal pelo País, para conhecer a real situação da pobreza, o ministro da Previdência Social, Ricardo Berzoini, foi alvo do assédio de políticos e líderes classistas ainda na Esplanada dos Ministérios, quando se preparava para o embarque. É claro que algumas das abordagens tiveram provavelmente conteúdos palpáveis, principalmente por conterem propostas discutíveis e negociáveis que possam contemplar todas, e não somente uma categoria. É o que se espera da apresentada pela Confederação Brasileira de Aposentados e Pensionistas (Cobap), cujo presidente, João Resende Lima, foi um dos líderes a abordar Ricardo Berzoini. Supõe-se, por não se conhecer a proposta, que esta entidade representa nacionalmente aposentados oriundos da iniciativa privada e do serviço público. E que, sendo assim, suas defesas não omitam interferências para as duas categorias.
Já não é o caso dos militares, que iniciaram estudos para combater a proposta de aposentadoria única ao tomarem conhecimento que o ministro da Previdência pretende quebrar a integralidade nesse setor. O estudo, segundo o pouco que se divulgou dele, pretende mostrar aos diversos segmentos do novo governo e do Congresso Nacional as peculiaridades da carreira militar. Deverá conter também o resultado de uma pesquisa feita em países como México, Portugal, Chile, Peru, Venezuela, Bolívia, Paraguai, China, França e Alemanha, onde o sistema previdenciário é diferenciado para as Forças Armadas.
É a luta corporativa, que se não pode ser condenada, eis que a Constituição garante tal mobilização, deve ser analisada com cuidado. Se é peculiar a carreira militar, também é a do médico, físico, gari, lavador de carro, químico e tantas outras categorias. A reforma do sistema previdenciário, a princípio, deve promover a justiça, esperada há anos.

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