OPINIÃO DA FOLHA
Ano de sobressaltos
Ano de muito trabalho e pouco dinheiro. É o resumo das opiniões de leitores ouvidos pela Folha para reportagem sobre o balanço da economia em 2002, cujo texto pode ser lido neste domingo. O mais importante: este balanço não é feito com base em fórmulas e índices que, a princípio, parecem distantes do cotidiano das pessoas. É simplesmente e por isso mesmo mais expressivo o resultado das contas que os consumidores fazem mensalmente, para ter o controle das finanças domésticas. E onde se conclui que se gasta muito mais para manter o mesmo padrão de consumo de outros tempos. Ou, na leitura do assalariado, gasta-se a mesma quantia de meses atrás, para comprar muito menos.
Pouca oferta de vagas no mercado de trabalho, salários arrochados e inflação galgando degraus da noite para o dia, sobretudo nessas últimas semanas de 2002, fazem deste ano que chega ao fim um amontoado de meses de decepções para a maioria da população brasileira. Evidente que tal situação é o desenrolar de um acontecimento que já era previsto. Por longos oito anos, o atual governo segurou a taxa inflacionária com uma economia de paralisação das asas desenvolvimentistas do País. Pouco foi feito em termos de investimentos e a taxa básica de juros funcionou como cadeado, inclusive do consumo. Tudo para mostrar que o real se mantinha como moeda razoavelmente estável e a inflação abaixo do que se sentia na compra dos produtos básicos.
Em tal situação, a qualquer momento, o gargalo se mostraria insuficiente para segurar a economia e a explosão seria inevitável. As eleições de 2002 funcionaram como gota d'água, transbordando dígitos cada vez mais altos nos indicadores que medem a situação da economia. E chega-se, infelizmente, a se ter dúvidas sobre algumas das causas desse estouro ter ocorrido a partir do momento em que a vitória do mais forte concorrente de oposição à presidência da República estar praticamente consolidada. Dívidas públicas, inclusive, venceram em datas estratégicas. E como elas são pagas em dólar, consequentemente alavancaram o custo da moeda americana, que rapidamente ultrapassou a relação de três por um no que diz respeito ao real.
Eis um compromisso que o novo governo e sua equipe terão que assumir, neste 1º de janeiro: acertar a economia em tempo recorde, para, inicialmente, devolver à população o poder de consumo, e, em seguida, criar condições para o País se desenvolver. Inflação baixa, porque segurada no cabresto, não parece ser a fórmula mais adequada.





