OPINIÃO DA FOLHA
'Isonomia' para todos
Bastou uma votação simbólica de 1 minuto e 28 segundos na segunda-feira para os deputados federais aprovarem aumento dos seus salários em 54%, o que eleva o ganho desses parlamentares dos atuais R$ 8.280,00 para R$ 12.720,00 a partir de 1º de fevereiro do ano que vem, quando tomam posse os eleitos e reeleitos. Ontem o projeto foi referendado no Senado, pelo mesmo índice.
A questão fundamental é que a maioria da população brasileira não tinha conhecimento dessa proposta. Ao contrário do que ocorre quando o projeto está relacionado ao reajuste do salário mínimo, este não gerou discussões. Até o meio da noite de ontem, somente uma voz contrária se manifestava, a do presidente do Partido dos Trabalhadores e deputado federal José Genoino.
Mas, ainda assim, a queixa de Genoíno limita-se apenas à forma como a proposta foi votada, e não ao percentual de reajuste ou a conveniência do projeto neste momento. ''A questão do salário dos deputados, no meu modo de entender, tinha de ser vista de forma global com o Executivo e o Judiciário. Lamentavelmente, a questão foi colocada separadamente'', comentou o parlamentar.
O custo da aprovação desse reajuste custará ao brasileiro R$ 39,5 milhões nas folhas de pagamento da Câmara e do Senado, considerando que os parlamentares recebem 15 salários por ano, incluindo o 13º e ajudas de custo. O mais grave, porém, é o efeito cascata que o reajuste dos ganhos dos deputados federais e senadores provocará nas assembléias legislativas, câmaras e alguns segmentos do funcionalismo público. A justificativa será sempre a mesma: isonomia. É este, aliás, o argumento dos congressistas, que querem ter seus vencimentos equiparados aos dos ministros do Supremo Tribunal Federal.
O aspecto chocante deste fato, além da diferença de repercussão entre um e outro caso com o salário mínimo o reajuste motiva polêmica por semanas e até meses , é que a maioria dos trabalhadores brasileiros não só desconhece o termo isonomia como não tem direito a nada parecido. São os parlamentares que decidem por eles com quanto é possível comprar uma cesta básica, educar, alimentar, vestir e calçar seus filhos, ter o mínimo de lazer e viver. Regras e direitos diferentes para pessoas iguais.





