OPINIÃO DA FOLHA
O eleitor deve saber
Uma nomeação para um cargo importante, tal como o de ministro da Fazenda, no enfoque convencional deveria ser avaliado como prestígio que o indicado desfruta junto ao presidente da República e aos setores direta e indiretamente ligados à economia do país. Assim, além da responsabilidade que o detentor do cargo assume com a nação, deve ele ao presidente lealdade e comprometimento com as suas causas, por sinal as mesmas que foram referendadas pelo eleitor através do voto e levaram seu propositor ao mais alto posto político.
É o contrário que parece ocorrer neste Brasil da transição, com a nomeação do deputado eleito Henrique Meirelles para a pasta da Fazenda. Desde que o nome de Meirelles foi anunciado pelo presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, na semana passada, as reações, embora diversas, penderam para certo desapontamento. E não teria o presidente a obrigação de ouvir ou ter conhecimento de certas análises desfavoráveis, caso a opção tivesse recaído sobre figura menos comprometida do mundo econômico. O Brasil da transição dispõe de bons nomes para a pasta, alguns deles mais próximos de Lula, no seio do próprio Partido dos Trabalhadores, e outros menos envolvidos no partidarismo, mas de atuação ímpar nas empresas de capital privado e nas instituições de ensino superior.
Mas Meirelles, de passado ligado aos bancos internacionais, rende já neste momento ao presidente Lula comentários como o feito ontem pelo líder do PFL no Senado, José Agripino. ''Para quem prometeu inventar a roda, mostrou ontem que não tem roda nenhuma para ser inventada'', afirmou o parlamentar, após o nomeado ter sido sabatinado. ''É um homem de mercado que declarou a intenção de cumprir os princípios da atual política momentária e que pretende até operar com os juros como forma de combater a inflação'', justificou.
É este o perfil do futuro ministro da Fazenda. E de quem quer que parta o comentário, tem este fundamento no passado de Meirelles. Não é de hora para outra que se mudam ideologias. Assume, portanto, um risco o presidente Lula. Ao convidar Meirelles, fazendo-o renunciar ao cargo de deputado, tira do nomeado a possibilidade de prosseguir carreira parlamentar. E este pretenso parlamentar que virou ministro terá uma dívida a cobrar de quem redirecionou sua carreira, por ter deixado um posto para o qual foi eleito para assumir outro. E o presidente, no caso de Meirelles fracassar como ministro, pelo preço desta dívida terá que arrumar-lhe um novo cargo. O eleitor tem que saber disso.





