OPINIÃO DA FOLHA
Diferença de conceito
Naturalmente que, em política de desenvolvimento, os norte-americanos são mais entendidos que os brasileiros, por isso eles adotam o juro básico de 1,25% ao ano para as operações financeiras. É o federal funds rate, que corresponde à nossa Selic, que é de 22% e está com tendência de subir. A taxa americana, que era de 1,75%, foi baixada um mês atrás para o nível atual. A razão sábia: baratear o crédito, estimular o consumo e alavancar o crescimento econômico. O resultado dessa política, que vem de muitas décadas, é que os Estados Unidos são a nação mais próspera do mundo. Mais não será preciso argumentar.
No Brasil, o juro básico vem sendo elevado justamente para conter o consumo, ou seja, o desenvolvimento engatado em marcha à ré. E o resultado, também não será necessário evidenciar. Certo que há alguns complicadores que não permitiriam mudanças bruscas no sistema econômico vigorante, mas a política de frear o consumo é antiga na vesga mentalidade brasileira. A própria sociedade foi iludida a pensar que consumismo é um mal e que melhor é guardar dinheiro na poupança.
Com população igual uma vez e meia à do Brasil, os EUA ainda desejam mais consumismo, para que a roda não pare de girar. E, com esse intenso fluxo de produção e consumo - uma coisa puxando a outra -, a inflação americana está sob controle há muitos anos, sem riscos, porque balanceada. O mal brasileiro é que uma corrida abrupta para o consumo exigiria a correspondente produção, porque esta também se atrofiou em função das baixas compras do mercado - aí também uma coisa puxando a outra, só que em sentido inverso.
A receita para o crescimento econômico de uma nação é produção, distribuição e consumo mas, no Brasil, as três coisas capengam. Há setores que avançaram, como o da produção rural, mais que suficiente para abastecer o mercado interno, mesmo que ocorra uma grande demanda por melhoria do poder aquisitivo via emprego, porém muita coisa iria escassear em caso de uma explosão consumista.
Mas não haverá de ser a insuficiente produção de agora a justificativa para evitar o incentivo ao consumo. Porque a produção crescerá, se estimulada, e assim também se moverá a ciranda do emprego, afastando-se as misérias sociais, que obrigam a campanhas como a da fome-zero, que virá no próximo governo e é necessária, em face da situação emergencial. Mas isso poderia ter sido evitado e poderá ser evitado no futuro , se fossem adotadas políticas sustentadas de desenvolvimento, de modo a tornar independentes economicamente os cidadãos e aptos a alimentar-se e a desfrutar do bem-estar com seus próprios recursos.





