A fúria da remarcação
Espera-se que a fúria remarcatória de preços tenha vida curta e que se contenha a partir de janeiro, ou pode-se voltar a uma situação de descontrole econômico de difícil reversão. Os aumentos no varejo são atribuídos à alta ocorrida nas fontes fornecedoras, mas são exagerados, porque não seguem a proporcionalidade incidente sobre o custo final do produto. Isto se deve a uma mentalidade ainda predominante no mercado, de elevar preços aleatoriamente, sem precisão de cálculos. Se um item tem determinado porcentual de aumento, não deve ser repassado no mesmo nível ao preço da mercadoria, porque cada produto tem vários componentes de custo e será necessário conhecer os reais números de cada um deles.
Mas esse exercício de contabilidade não é muito praticado, nem pela produção e nem pelo comércio, até porque, no mais dos casos, não o dominam. O que está ocorrendo, além de uma corrida para as remarcações não corretamente calculadas, é também o oportunismo de muitos, que visam recuperar lucros não alcançados como o esperado, e contabilizam isso como perda, sem atentar para casos de má gestão do próprio negócio. Incompetência gerencial é sempre atribuída a fatores externos, nem sempre existentes nas proporções que lhes são dadas. E as falhas da política governamental não devem encontrar imitadores, ou a situação nunca se conserta.
Aqueles que resolveram mudar de sistemas, optando por vender a preço justo e vender mais, ganhando no volume e não no lucro alto das poucas vendas o que afasta a freguesia e quebra o negócio estes se deram bem e prosperaram. É uma demonstração de imprudência e pouco patriotismo essa obsessão remarcatória sem critério, porque embarca na corrente especulativa motivada recentemente pela explosão do dólar e porque visa prevenir-se ante o que poderá vir com o novo governo, e este é um temor infundado. É dessa forma e não apenas essa, porque há também outros fatores que a desorganização econômica se implanta. O mecanismo da indexação de preços a torto e a direito é o caminho para o caos. Remarcações ditas preventivas, que os segmentos de produção e comercialização qualificam de defensivas ante as incertezas quanto à política econômica do futuro governo, constituem na verdade um ataque, do qual quem tem que se defender é o consumidor, consubstanciado em 170 milhões de brasileiros.

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