Os pequenos pagam
A pirataria de CDs e a falsificação de produtos são crimes previstos em lei e não há como deixá-los impunes, porque isso significaria o fim da ordem e o princípio da anarquia. Mas no Brasil a aplicação severa das leis ocorre mais frequentemente contra os pequenos. Esta é a distorção que será preciso corrigir. A apreensão, pela polícia, de discos pirateados, ocorrida no camelódromo de Londrina e que resultou em quebra-quebra e grande tumulto, configura-se como execução legal, sendo a agitação que se segue uma natural consequência nesses casos. Porém, ''piratarias'' idênticas e outras muito piores ocorrem em toda a parte e algumas institucionalizadas e contra esses casos não existe repressão.
Naturalmente que é possível ganhar a vida na legalidade, sem ser preciso apelar para a venda de material reprocessado ilegalmente ou falsificado, até porque, se forem produtos alimentícios ou bebidas, podem levar o consumidor a sérios riscos de saúde. O irregular não pode subsistir se quer se melhorar padrões, ou o caos se implantará. Contravenções como o jogo-do-bicho, por exemplo, foram combatidas, enquanto o governo se transformava no grande bicheiro ao implantar megas e senas, jogos eletrônicos em rede e uma infinidade de outras apostas. Essas práticas não deixam de ser prejudiciais ao bolso dos cidadãos só porque públicas e regulamentadas. Bilhões e bilhões de reais são extraídos semanalmente do meio e canalizados para o governo, em forma dessas apostas hoje talvez o mais perverso dos tributos, porque descapitalizador porém imperceptível à maioria dos cidadãos.
Sonegadores de impostos triunfam soberanos, e o contrabando em escala, pelas fronteiras, mobiliza jamantas abarrotadas de mercadorias, e é difícil acreditar que a fiscalização não saiba. Estas são as incoerências do regime, mas parece que as autoridades preocupam-se pouco com isso, preferindo a facilidade de aprender CDs piratas nos camelódromos e mercadorias em poder dos sacoleiros, porque isso é simples de fazer e não há resistência. O sistema financeiro impõe juros assassinos, lança arbitrariamente dezenas de taxas nas contas-correntes da clientela e não existe poder com força de impedir isso, porque interesses mais altos se alevantam e esses pontos se transformam em trincheiras intocadas. A repressão às irregularidades é prática de lei, mas a lei tem que ser para todos.

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