Interesses contrariados
O futuro presidente Luiz Inácio Lula da Silva não poderá entregar-se demais a conversações com as alas radicais de seu partido, ou não fará governo. Agora que anuncia o propósito de igualar as aposentadorias salvo as já existentes começa a encontrar resistência dentro do próprio PT e dos sindicatos. Líderes sindicais, mantendo o ideário petista no que são coerentes proclamam que a decisão não pode ser imposta e que será preciso ''muita conversação''. A bancada petista no Congresso ficará dividida entre a proposta que emanará do Palácio, onde toma assento o líder partidário supremo e, mais que isso, presidente da República; e a corrente que compõe as bases e que têm sido especialista histórica em torpedear idéias e projetos.
Lula e sua equipe terão de apresentar ao Congresso um projeto bem consolidado, que não permita brechas para emendas que mutilem a proposta original e levem a prolongadas discussões. A denominada ''gestão participativa'', que sempre figurou entre os postulados do Partido dos Trabalhadores, não tem dado certo quando foi transportada para dentro das administrações, nos governos petistas prefeituras sobretudo. Porque o que se tem assistido é a conversação demais e pouca realização.
No caso da reforma previdenciária, não há outra fórmula senão igualar os sistemas que regem servidores públicos e privados, tanto no benefício quanto na contribuição (porque são diferenciados). O que não pode ocorrer é a reforma ocorrer a longo prazo fórmula defendida por alas sindicalistas ou a questão não se resolverá no próximo governo e terá de ser retomada no seguinte, e assim sucessivamente. Fortes redutos do petismo situam-se nos quadros do funcionalismo público, e é justamente ali onde Lula irá mexer primeiro. Interesses contrariados falam mais alto que ideais patrióticos. O futuro Presidente terá de governar, o mais possível, a seu modo e não no modo dos outros, porque foi para que fizesse mudanças que o povo brasileiro o elegeu.

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