OPINIÃO DA FOLHA
Caminhos de abertura
Se as reformas que se faziam necessárias não ocorreram no governo de Fernando Henrique Cardoso é porque faltou empenho do Presidente, como de resto aconteceu com quase tudo o que dependia da presença e da persistência governamental. A proposta de reforma da Previdência tramitou 3 anos e 7 meses no Congresso, mas foi bombardeada verdade se diga pelo próprio PT, e com ela nunca se comprometeram os partidos do governo. E isso se deveu à ausência de liderança de FHC, a quem incumbia o comando do processo. A situação agora é mais favorecedora, pela estratégia do Presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva de apresentar ao público a proposta já, aproveitando o calor da força política capitalizada pelo expressivo resultado das urnas. Reforma já é, ao menos, uma coerência com as costumeiras palavras de ordem do partido.
Segmentos partidários, que a partir de janeiro poderão ser qualificados como de oposição, manifestam-se simpatizantes da idéia, mas eles próprios irão enfrentar o lobby do funcionalismo público, porque, se a medida que estabelece um teto único nas aposentadorias não atinge os já aposentados, abrangerá um imenso contingente dos prestes a aposentar-se, na esfera dessa categoria profissional. Uma grande cirurgia não acontece sem sangria, e se alcançada essa primeira vitória, estará aberto o caminho para outras soluções, como a da melhoria do salário mínimo. E, retirado um grande peso da Previdência pela inexistência de aposentadorias milionárias futuras o que irá ocorrendo progressivamente, devendo-se atentar que o déficit previdenciário ainda continuará por bom tempo irá sendo pavimentado o caminho para uma possível diminuição dos encargos sociais sobre a folha de pagamento dos empregados, podendo-se pensar, como resultado disso, também em aumento do emprego e em melhoria salarial.
A reforma da Previdência Social, se não é a única que reclama urgência, é uma das fundamentais e, se aprovada integralmente, desencadeará todo um processo de benéficos resultados. Uma primeira vitória de tamanha expressão mexerá com o entusiasmo da ação popular e induzirá o Congresso em boa parte renovado na última eleição a uma postura de mais responsabilidade diante dos projetos das demais reformas. A aprovação do teto único das aposentadorias será um teste para os congressistas e uma importante oportunidade de ganharem o respeito e a simpatia da população, num momento em que há tanto descrédito sobre as instituições e um tão grande sentimento de expectativas frustradas. Louva perceber-se que dois projetos de envergadura já saem do campo das promessas de campanha do então candidato e agora Presidente eleito e convertem-se em planos de execução, como o da Fome-Zero e agora o da reforma previdenciária, previstos para ter sua arrancada já nos primeiros dias do futuro governo.





