A Polícia
envolvida
A opinião pública fica desalentada e cada vez mais descrente das instituições quando lê, nos jornais, denúncias de envolvimento da Polícia com a marginalidade. E também se revolta quando é informada de que policiais abusam da autoridade e praticam atos de tortura contra presos e suspeitos, incluindo menores, como mostrou ontem este jornal. Esses fatos reforçam a desconfiança nos organismos de segurança e a corrente de temor que os cidadãos têm, diante de um policial, tanto quanto têm dos bandidos.
A acusação, agora partida do Ministério Público do uso de tráfico de influência de um delegado do alto escalão, em favor de uma quadrilha de roubo de cargas, desencanta ainda mais a sociedade e a encurrala na redoma da insegurança. Se o sistema incumbido de dar-lhe proteção passa a favorecer os infratores, isso significa que o poder do banditismo vai se fortalecendo e que poderá chegar a um ponto de descontrole, como já ocorre com o crime organizado em grandes cidades brasileiras.
A situação se agrava quando os próprios comandos são denunciados, pelo mau exemplo aos subordinados, que passam a não lhes atribuir autoridade e, também eles, a eventualmente adotar idêntico comportamento. A história da corrupção, em todas as esferas do poder público, no Brasil, sempre envolveu figuras da alta cúpula, e assim esse vício já arraigado na administração governamental vai se espraiando pelas escalas mais baixas e ganha robustez, a ponto de se tornar comum e aceito no próprio meio.
As chefias perdem a moral sobre os comandados e ficam sem condição de cobrar-lhes honestidade, até pela cautela que passam a adotar para não ver expostos seus próprios pontos vulneráveis. A criminalidade, então, se institucionaliza e se mescla com a bandidagem militante, e a sociedade fica cada vez mais sem defesa e entregue à própria sorte. Se com agentes honestos já não é fácil combater a delinquência, inútil alimentar esperanças quando se constata que o próprio sistema se envolve com os fora-da-lei.
É muito forte o poder de oferta das organizações criminosas, e frágil a resistência dos que têm a função de desmantelá-las, até pela inevitável circunstância que os aproxima e faz com que se conheçam estreitamente. Quando se trata de roubo, há sempre valores envolvidos, pertencentes a terceiras pessoas e que passam a ser objeto de cobiça tanto dos que se apossam deles pelo roubo e pelo assalto, quanto dos agentes públicos da segurança, que ressalvadas as exceções vêem neles um patrimônio já sem dono e do qual imaginam também poder apropriar-se.
As manchetes dos jornais deveriam servir para anunciar o fim das necessidades sociais e a prisão dos delinquentes, mas elas têm se prestado também para mostrar comandantes e agentes de segurança envolvidos com a criminalidade. Um rigoroso expurgo na Polícia e uma valorização dos bons agentes, como anuncia o governador eleito do Paraná, é tarefa árdua mas que deve ser levada adiante. E não apenas isto, mas há que se adotar regime de apurado selecionamento dos futuros candidatos a ingressar nos quadros policiais.

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