OPINIÃO DA FOLHA
Do conceito sobre
transição pacífica
Evidente que a transição do governo de FHC para o de Lula não é pacífica, porque não se trata apenas de passar a faixa presidencial em clima de cordialidade e dentro dos princípios da ordem constitucional. Transições pacíficas ocorrem mesmo entre ferrenhos adversários, o que se verificará no Paraná, no caso de Lerner e Requião. O conceito de transição pacífica deveria ser o novo presidente da República receber a Nação em ordem e em paz social, mas não é o que ocorre no Brasil, embora todo o charme da diplomacia e o esmero do atual ocupante do poder em passar ao mundo a imagem de que tudo são sorrisos.
FHC deixa a Lula uma triste herança, em que há pouco de pacífico e muito de preocupante. São 40 milhões de indigentes, 7 milhões de desempregados pelo número oficial, ou 11 milhões pela estimativa do governo que irá assumir; violência urbana fora de controle, com o crime organizado atuando como poder paralelo; presídios lotados, onde fermentam as rebeliões, com rastros de violência e morte; corrupção campeando, em todas as esferas da administração governamental; repartições públicas inchadas, consumindo somas fabulosas que bem poderiam ser destinadas a fins mais produtivos; estradas em péssimas condições; os setores de saúde e educação ainda mal atendidos; todas as grandes reformas por fazer, como a tributária, a política, a agrária, a da Previdência e a da legislação trabalhista; a inexistência de políticas consistentes de estímulo à produção e à exportação; a manutenção (nunca alterada neste governo) da política de juros altos, que estancou a circulação de moeda e travou o desenvolvimento; e dívidas interna e externa descomunais, que deixariam em desespero qualquer administrador sensato.
Uma transição pacífica ocorreria se esses males não existissem ou não assumissem tamanha gravidade. O que o novo governo recebe é uma casa em desordem, que demandará muito tempo e esforço para ser rearrumada, tarefa que não se realizará num só governo, simplesmente porque tudo está por fazer. A transição, portanto, não ocorre em paz mas em meio a muita instabilidade e insegurança social. Poderia haver mais tranquilidade nesta passagem, se os oito anos do atual governo não houvessem sido desperdiçados, o que tornaria mais amena a tarefa do novo e não lhe transferiria tantas chagas sociais por curar e cujas marcas mais fundas estão no desemprego, no subemprego, na fome e na violência de cidadãos contra cidadãos em luta pela sobrevivência, o que transforma todos em vítimas. O que aconteceu no governo de FHC foi uma usurpação de direitos, que o próximo governo terá de recuperar. A nação exigirá pressa, mas tantos anos de descuido exigirão muito esforço e dedicação e mais uma vez muita cooperação e muita dose de paciência de parte do povo, o que soa como sacrilégio pedir, de quem tanto já doou em sacrifícios, mas será preciso.





