Compromisso
com mudanças
O discurso à Nação feito ontem pelo presidente-eleito Luiz Inácio Lula da Silva não difere de sua pregação de campanha, mas tem agora o peso de pronunciamento presidencial e ganha a conotação de palavra oficial. Por isso os brasileiros devem tê-lo ouvido muito atentamente, não ante a visão de um candidato mas do próprio mandatário supremo da República, já revestido de um virtual poder político que o coloca no mesmo nível, ou acima, que o titular em final de mandato. Sua fala foi de esperança e otimismo, dissipando eventuais temores, se é que eles ainda pairassem, disseminados que foram com grande intensidade pelas correntes adversárias, nas vésperas do primeiro turno.
Lula já imprimiu o selo do primeiro ano de seu governo, que será o combate à fome. Nesse sentido, uma de suas providências iniciais, conforme anunciou, será criar a Secretaria de Emergência Social, fazendo jus ao ideário da campanha que agora o guindou ao poder, assim como das anteriores, e que sempre figuraram entre as marcas fortes do Partido dos Trabalhadores. ``Eu não vou decepcionar os brasileiros``, ele garantiu, convicto, afirmando que o entendimento, a negociação e a paciência superarão os limites de um partido referindo-se, naturalmente, ao seu próprio.
O futuro Presidente tocou em todos os pontos, acenando com caminhos de mudança e ressaltando a necessidade de dar combate à pobreza, por via de projetos sustentáveis de desenvolvimento econômico e social. Reafirmou que honrará os contratos assinados pelo Brasil, o que deve ter tranquilizado os organismos financeiros internacionais e os investidores eventualmente temerosos de um governo de esquerda, historicamente radical, mas reiterou que será necessário lutar contra as barreiras protecionistas injustas, de certos países, sobre produtos brasileiros.
Lula afirmou que barateará o crédito e estimulará o consumo das massas, pela geração de empregos e distribuição de renda que ele afirmou serem sua obsessão e que se empenhará pessoalmente, junto ao Congresso Nacional, para implantar as grandes reformas que a Nação reclama, como a agrária, a das leis do trabalho, a política, a tributária e a da Previdência. Não perdeu sua visão nacionalista e de unidade continental e de boas relações transcontinentais, ao afirmar que seu governo será um guardião da Amazônia e que implementará o Mercosul e a integração da América Latina, através de acordos bilaterais, incluindo o de combate ao narcotráfico, e que não perderá de vista a realidade da globalização, quando solidária e humanista.
Admitindo que erros de muitos anos não serão corrigidos a um passe de mágica, e que a dura travessia pela qual seu governo irá passar será de austeridade, Lula semeou palavras de otimismo e afirmou, enfático, que ``um novo Brasil está nascendo``. São afirmações que incumbe registrar, neste momento histórico em que a Nação decide fazer opções de mudança e confia a Luiz Inácio Lula da Silva a tarefa de gerenciar os negócios da República.

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