OPINIÃO DA FOLHA
Estabilidade
capenga
O presidente Fernando Henrique Cardoso infla o peito quando fala do que seria, segundo o seu ponto de vista, o grande mérito do duplo governo tucano: a estabilidade. Invariavelmente o auto-elogio ignora o preço do controle da inflação nos últimos oito anos, entre eles o desaquecimento da economia, a falta de crédito ao setor produtivo, o aumento do desemprego, o achatamento da renda do trabalhador, a transferência brutal de recursos do Brasil que produz para o que especula.
O mandato de FHC está em seus estertores e, por isso, o grande feito do governo a inflação baixa poderá permanecer como marca da passagem tucana pelo Poder. Mas é por um triz. A alta desenfreada dos preços está a ponto de ressurgir no cenário econômico brasileiro. O próprio governo federal admite isso na ata que justifica a elevação da taxa básica de juros, na última segunda-feira.
O Brasil desfrutou nos últimos anos de uma estabilidade frágil, com prazo de validade que expira junto com o atual governo. Na verdade, o que o País teve nesta última década foi um equilíbrio artificial, que atropelou os quatro fundamentos básicos de uma economia rumo ao equilíbrio.
Em primeiro lugar, o superávit fiscal, premissa indispensável para um país que se diga estável, só foi alcançado no governo FHC às custas da supertributação do setor produtivo. Se o governo obteve saldos positivos neste quesito, foi pela via do aumento da receita, nunca pela redução responsável da despesa.
A política comercial de FHC não se concentrou em elevar as exportações, o que garantiria, aliado ao controle das importações, outro superávit fundamental para a estabilidade o da balança comercial. No primeiro mandato, a opção foi atrelar o real ao dólar e criar um mundo de ficção. Quando o real derreteu, a saída foi ganhar competitividade no exterior pela via da desvalorização da moeda, não do aprimoramento industrial.
A garantia de abastecimento do mercado interno, terceiro ponto de sustentação da estabilidade, também foi atropelada. FHC optou pelo atalho das importações, que reprimiram os preços e criaram as condições para o ''controle da inflação'' ao custo de retrair a produção e, o que é grave, inibir investimentos.
Por fim, o governo FHC pecou em um quesito essencial credibilidade. País estável é aquele que inspira confiança, interna e externa. Como se vê, o Brasil não atingiu esse estágio porque os sucessos que obteve nos outros aspectos foram débeis. Sempre que conseguiu melhorar o resultado fiscal, comprometeu o comercial. Quando controlou o abastecimento interno, desequilibrou a balança. Se segurou o saldo comercial, perdeu as rédeas da política fiscal. O que tivemos, afinal, foi uma estabilidade capenga, para consumo imediato, e não um programa de futuro para recolocar o País na rota do desenvolvimento.





