OPINIÃO DA FOLHA
A problemática
dos juros no Brasil
Quando o presidente Itamar Franco assumiu, a crise econômico-social era grave, com desemprego, arrecadação tributária baixa e outros tantos problemas, e uma de suas posições era o inconformismo com a política de juros altos praticada pelo Banco Central. Sua equipe econômico era integrada pelos ministros do Planejamento, da Fazenda, da Indústria Comércio e Turismo, da Agricultura e Reforma Agrária e do Trabalho, e mais os presidentes do Banco Central, do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal. Em sua primeira reunião com a equipe, Itamar deixou claro seu entendimento de que era preciso baixar os juros. Mas foi exacerbadamente contestado pelo presidente do Banco Central e pelo ministro da Fazenda.
Como essas reuniões aconteciam com frequência, numa delas o Presidente perguntou ao ministro da Indústria e Comércio, José Eduardo de Andrade Vieira, ex-banqueiro, se era possível baixar os juros. A resposta, mesmo contrariando a posição do presidente do BC e do ministro da Fazenda, foi pronta: era possível. E expôs detalhadamente como. O titular do Banco Central reagiu, declarando que a consequência seria uma corrida aos saques na caderneta de poupança. José Eduardo dirigiu-se ao presidente da República e sugeriu-lhe que perguntasse ao presidente da Caixa e do Banco do Brasil o que eles achavam. A pergunta foi feita e a resposta de ambos foi plenamente favorável ao plano, sem risco de corrida aos saques.
A determinação de Itamar, então, foi que o Banco Central e o ministro da Fazenda pusessem o plano em prática. O juro básico anual, então, foi baixado de 29% para 23%, sem problema com os aplicadores da poupança. Era final do ano de 1992. No início do ano seguinte, em outra reunião com a equipe econômica, Itamar perguntou novamente ao ministro José Eduardo se aquele juro poderia ser baixado ainda mais. A resposta, outra vez, foi que sim, e então o presidente da República determinou que assim fosse feito. A queda foi de 23% para 17%. Esse patamar foi mantido até julho daquele ano, quando então viria a assumir o Ministério da Fazenda o senhor Fernando Henrique Cardoso.
A partir daí o juro explodiu e nunca mais voltou ao que era. O novo ministro e o Banco Central impuseram sua política, FHC acabaria Presidente e tudo continuaria nesse ritmo, até os dias atuais, culminando com o que ocorreu na reunião extraordinária de ontem do Copom, elevando o juro básico de 18% para 21% ao ano e aumentando o clima já dominante de insegurança. Se o governo Itamar pôde baixar os juros, a pergunta é porque FHC não consegue. A resposta pode estar contida neste fato: Itamar ouvia os homens de sua equipe, entendidos em estratégias de mercado e economia; Fernando Henrique não ouve ninguém.





