OPINIÃO DA FOLHA
As vítimas das
terras alagadas
O problema dos alagamentos de áreas agrícolas, para construção de usinas ou para estocagem de água potável, é que o poder público se fixa primordialmente no seu objetivo, desprezando a plena solução que também precisa dar aos ocupantes das terras, porque eles ficam descapitalizados e sem um destino seguro. Agora acontece, mais uma vez, na Grande Curitiba, com propriedades de imigrantes italianos e poloneses na mira de projetos do governo estadual de criar duas novas represas e desapropriar lotes para passagem de uma variante ferroviária. A região a ser atingida é toda de propriedades agrícolas, onde colonos vindos da Polônia e da Itália, há mais de cem anos, passaram a produzir hortaliças e outros mantimentos que, em todos esses anos, vêm abastecendo quase metade da população curitibana.
O mal é como esses projetos são feitos, como demonstra reportagem-denúncia de domingo, deste jornal. Os colonos declaram que não foram avisados das ''audiências públicas'' que se realizaram para esse fim, e que os técnicos de medição entraram em suas terras sem nem pedir permissão. Se o governo já age assim, agora, imagina-se que insistirá nos projetos de maneira unilateral, já se temendo pelos critérios que adotará para avaliação das terras e benfeitorias a serem desapropriadas, assim como para os lucros cessantes, e como cuidará do assentamento desses colonos em outras áreas. Certamente que esses bens serão avaliados por preços baixos, que irão impossibilitar a compra de áreas correspondentes em outro lugar e a reimplantação da infra-estrutura hoje existente.
Assim tem ocorrido com a história da desapropriação de glebas, em toda a parte, sobretudo para a construção de hidrelétricas, e o resultado final disso é conhecido: colonos que se transformaram em sem-terra e que debandaram para os núcleos urbanos, onde instalaram negócios que no mais dos casos não deram certo, pela própria inexperiência. Descapitalizados, muitos passaram a ser bóias-frias, engrossando o contingente dos favelados. Questiona-se, portanto, se a única forma de a Sanepar estocar água potável e esta a razão do projeto das represas é criando esses depósitos a céu aberto, e se grandes caixas d'água não seriam uma solução menos primitiva e mais conveniente. Se o atual governo já está encerrando o mandato, embora o primeiro represamento deva começar este mês, cabe a intervenção dos candidatos ao governo do Estado, pois os problemas sociais que advirão irão recair sobre um deles.





