Deputados
ausentes



A arte de bem legislar é mais que a simples assiduidade no comparecimento às sessões parlamentares. A presença sistemática aos trabalhos legislativos não é garantia de qualidade de um deputado, e nem as ausências o desqualificam, apenas por isso. Os chamados ratos de gabinetes, que fazem morada dentro de uma casa legislativa, podem não ser os melhores, sendo às vezes apenas hábeis oportunistas, que operam nos meandros da burocracia interna e dela se valem, sem grande proveito para a comunidade que representam. Porque ausentes da realidade das bases, onde, aí sim, deveriam fazer-se assíduos, para ouvir de perto as vozes populares e auscultar-lhes as reivindicações. Bons parlamentares não são, necessariamente, nem os assíduos e nem os ausentes das reuniões plenárias embora não devam afugentar-se no momento das grandes decisões mas aqueles que, numa condição ou noutra, estão atentos e são produtivos.
A história parlamentar brasileira conheceu homens públicos de grande valor, que se aprofundaram no estudo de soluções e formularam boas leis, que resultaram aprovadas e beneficiaram grandemente os cidadãos. Na contrapartida, alguns líderes de parlamentos, muito habilidosos no domínio dos regimentos internos e conhecedores profundos das manhas, artimanhas, virtudes e fraquezas de cada um dos pares, resultaram em mestres na arte do acomodamento e fizeram das casas legislativas templos de vício e redutos de barganhas e acordos espúrios. Exemplo tivemos com Ulysses Guimarães no Congresso, onde esse político imperou soberano durante décadas e soube como poucos articular, manipular e acomodar situações, que no entanto nada serviram aos interesses do povo. Alguns argumentarão com o movimento ''eleições diretas já'', atribuído a ele, porém tal nada mais foi do que um evento que naturalmente ocorreria, porque o próprio sistema ditatorial, já exaurido, o exigia.
De Ulysses não se conheceu projetos de lei importantes, nem se sabe que tenha direcionado as vistas do parlamento para grandes causas nacionais. Seus pleitos eram sempre políticos, no sentido estreito da boa convivência parlamentar, e o resultado foi uma péssima escola e um péssimo exemplo para o sistema legislativo, no próprio Congresso, nas assembléias legislativas estaduais e nas câmaras municipais. No Paraná, tivemos a passagem de Anibal Khury, que agiu de forma idêntica e foi o grande apologista de esquemas cartoriais, ainda hoje encontradiços sobretudo no sistema político dos feudos nordestinos. O Brasil e o Paraná ganharam pouco com eles e é mais certo que perderam, até porque o domínio desses líderes ofuscava e inibia ações de parlamentares bem intencionados.
O desconto de salários dos ausentes às sessões, medida agora tomada pelo presidente da Assembléia Legislativa do Paraná embora oportunista face ao período eleitoral, por visar, sem dúvida, o proveito de dar ao comandante da Casa um status de guardião da probidade é uma ação necessária, porque se sabe que os ausentes são ausentes convenientes, eis que não estão trabalhando pela causa dos paranaenses e sim pedindo votos em suas andanças pelo Estado. Melhor ainda seria se houvesse a possibilidade de descontar salário dos deputados que estão sempre ausentes de tudo e, por isso, nada produzem, a não ser estragos, quando votam contra o povo e quando negligenciam diante de questões que deveriam receber deles toda a atenção.

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