OPINIÃO DA FOLHA
Eleger e vigiar
O horário eleitoral no rádio e na televisão não está trazendo nenhuma novidade, e seria surpreendente se isso acontecesse, pela simples razão de que não houve saltos de qualidade no universo político brasileiro. O palanque eletrônico começou brando, sem muitos ataques entre candidatos, mas tem sido sempre assim, no início. Num eventual segundo turno a atmosfera ficará mais densa e aí o grau de politização dos disputantes mostrará a sua face, e já se imagina o que virá. O que se ouve e isto também não foi diferente em outras eleições é as pessoas declarando que desligam rádio e tevê na hora da propaganda política. Verdade que esse gesto é universal, porque mesmo nos países mais politizados o povo abomina os políticos.
No Brasil, se os telespectadores desejam assistir a teatralidades, o horário político se presta a isso, porque tudo é encenação, frases prontas e repetitivas, de efeito nulo, porque ninguém acredita e, muito pior, ridiculariza. Esta a realidade ao vivo e a cores, mas não há outra forma conhecida de os candidatos se apresentarem aos eleitores, a não ser que os visitem de casa em casa, como ainda acontece em pequenas comunidades. Com raras exceções, os postulantes a cargos eletivos buscam apenas o poder e os benefícios que uma tal condição propicia. O espírito público, este é atributo de poucos. Se é certo que os políticos são produto do meio social e se os melhores desse meio geralmente não se habilitam a concorrer, por temor e um certo egoísmo de poupar-se do escrutínio popular, o que assistimos nos palanques é o desfile do que a sociedade disponibiliza.
Um dos consagrados ideais, por ora utópico, é que, da mesma forma que se exige formação acadêmica para profissionais que irão desempenhar funções de alta qualificação, os candidatos a cargos públicos passem obrigatoriamente por escolas de formação política e cidadania, disciplina inexistente nas universidades. É grande o despreparo dos administradores públicos e dos que compõem o corpo legislativo, porque eles desconhecem a legislação com que têm de lidar. Para não falar da corrupção. É, portanto, difícil até escolher entre os candidatos menos piores, porque estes são suplantados em número pelos restantes, muitos dos quais acabarão inevitavelmente eleitos, por conta do sistema de proporcionalidade eleitoral. Há que conviver com o que se tem, fazendo expurgos até onde possível, e, sobretudo, policiar de forma permanente e sistemática a ação política dos que são eleitos.





