OPINIÃO DA FOLHA
Diálogo que faltou a FHC
Por mais que o presidente Fernando Henrique Cardoso queira demonstrar a postura de democrata e de governante afeito ao diálogo, e mesmo com a mídia mais condescendente tecendo loas ao sofisma que foi o encontro presidencial com os quatro candidatos, não se pode dar grande importância a tal acontecimento, que foi mais um arroubo de cidadania, e nem se deve crer em algum proveito prático resultante desses colóquios. Se o Presidente convidou os candidatos e eles aceitaram, cabe a estes também um débito à conta do oportunismo, algo como a emulação de que se um vai, não ficaria bem ao outro não ir. E se é verdade que os quatro cavalheiros já abrandaram um pouco o tom do discurso anti-governo logo à saída do Palácio, tal é uma natural posição de cautela, em momento de campanha. Tudo soa artificial, mas ao menos algo ficou demonstrado: quando há vontade, o diálogo é possível.
Foi uma imagem inédita, nos oito anos de mandato de FHC, ver o Presidente e seus ministros-chefes discutindo com lideranças nacionais no caso os candidatos. Tal poderia ter acontecido, durante todo o mandato presidencial, também com os líderes das classes produtoras e outras representatividades, que nunca encontraram as portas do Palácio tão escancaradas como agora se viu. Estará cega a nação se não perceber a teatralidade desse momento de abertura do gabinete presidencial à visitação pública. O que se conheceu até agora, de encontros do Presidente e seus mais proeminentes ministros com as lideranças, foi sempre o monólogo de discursos especialmente de um dos seus notáveis ao redor de mesas de banquetes, sobretudo na capital paulista. Poucas foram as reuniões de trabalho nos gabinetes ou o deslocamento do chefe e dos seus mais destacados homens para os recantos deste Brasil, tão estranho à comunidade palaciana brasiliense.
As imagens da reunião de segunda-feira passaram a idéia de um Presidente estadista, e assim a imprensa internacional irá qualificá-lo, mas, de verdadeiro, tudo isso tem apenas aparência, porque não se tem notícia de que alguma vez o chefe da nação chamou em palácio os representantes dos grandes segmentos da cadeia produtiva nacional e outras lideranças, para ouvi-los e aconselhar-se ou ao menos passar-lhes palavras de incentivo este sim um atributo dos estadistas. Ademais, tal ocorre em final de mandato e não passa de uma estratégia de marketing político, que visa tão somente exaltar a figura do Presidente, sem nada de grande valia para a nação, porque não há aceno de mudança de rumos por parte do atual governo. Tarde demais para isso. Lamenta-se o tempo desperdiçado pelo presidente da República e sua equipe, que perderam oportunidades preciosas de dialogar com as representações nacionais e encurtar distâncias, de ouvir suas reivindicações e assim saber do retrato do Brasil verdadeiro, este que Fernando Henrique não conhece e terminará seu mandato sem conhecer.





