OPINIÃO DA FOLHA
Um governo sem projetos
Se é natural os governantes alardearem aquilo que qualificam de excelências de suas gestões, no presidente Fernando Henrique Cardoso essa obsessão chega ao extremo. Há os que o fazem pelo mero exercício de sustentar o marketing pessoal, sem muita convicção do que afirmam, mas FHC escuta o próprio ego e os que o estimulam, e crê cegamente nisso, sem o senso da autocrítica. É conhecida a sua extremada vaidade, que o leva desde o delírio à irritação, se alguém ouse contestá-lo. Seus clássicos revides verbais são conhecidos e vão passar à história, como o de qualificar os contrários de nefelibatas opiniáticos, uma linguagem tão em desuso que forçou até os eruditos a recorrerem ao dicionário. O emprego de palavras inadequadas, quanto à verdade de seu conteúdo e à atualidade, mostra o descompasso do supremo mandatário com a realidade.
Agora FHC declara que ouviu calado, durante sete anos e meio, as pessoas dizerem que seu governo se interessou mais pelo mercado financeiro que pelos seres humanos, mas que, nesse período, fez a maior revolução social da história. Primeiro, FHC nunca ouviu calado, mas sempre rebateu tudo, e com ironia e até ira; segundo, essa revolução, ninguéu viu acontecer; terceiro, seu governo realmente contemplou muito mais o mercado financeiro que os cidadãos. No caso da saúde pública agora exaltada pelo Presidente não se viu grandes progressos e sim o retorno de antigas doenças populares, que se imaginava extintas; a proliferação de outras, para não falar da deterioração da saúde econômica e da saúde das instituições.
A certeza que se tem é que FHC passará à história como o governante que ignorou o Brasil, deixou avolumarem-se as dívidas interna e externa, o que agrava não propriamente o volume dos débitos negativos, mas o serviço dessas dívidas, ou seja, as volumosas somas desviadas de fins sociais e desenvolvimentistas para pagar os juros de tão pesados encargos. Esta é apenas uma das tristes heranças que FHC deixará para o sucessor. Mas tem muito mais nesse espólio, que é a entrega da máquina governamental onerosa, a atividade produtiva em baixa, a economia retraída, o desemprego assumindo proporções alarmantes e como consequência o aumento das necessidades sociais e da delinquência.
O presidente Fernando Henrique deixa histórias de incompetência, de ingerência no Congresso e de barganhas com parlamentares; deixa a estrutura vigorante dos juros extorsivos que comprometeram os efeitos da contenção inflacionária, por bloquear a circulação da moeda, geradora do crescimento; deixa empresas atadas a endividamento e grande parte dos consumidores em situação de inadimplência. E, o pior: a ausência de projetos de desenvolvimento, que poderiam ter continuidade no próximo governo. Em sete anos e meio de mandato de FHC não se conhece um único projeto governamental consistente e de efeito duradouro. O Presidente que assume em janeiro não operará milagres a curto prazo com essa herança madrasta que receberá.





