Nestes sete anos e meio de mandato do governador Jaime Lerner a vice-governadora Emília Belinati assumiu o comando do governo pelo período de um ano, se contados apenas os dias úteis. Significa que teve plenos poderes de chefe do governo, enquanto o titular viajava para o exterior. A vice volta ao poder hoje, pois Lerner empreende mais uma incursão por terras americanas. É a sua 47ª viagem para fora do País. A importância, para o Paraná, de suas idas ao estrangeiro – uma compulsão, só superada pela do presidente Fernando Henrique Cardoso – tem sido discutida mas pouco questionada, e a própria Assembléia Legislativa não faz caso.
Em final de mandato, interessa pouco avaliar agora o proveito dessas viagens, mas é oportuno questionar a utilidade dos vices, em todas as esferas de poder. O que fez a vice neste ano, de posses intercaladas, em que esteve à testa do governo? Apenas assentou-se no trono para não deixar a cadeira vazia e o governo acéfalo, e assim atender às normas constitucionais. Teve poderes para algumas providências que teriam revertido situações, mas não o fez, para atender a princípio de ética e fidelidade – o que torna meramente figurativa a existência da vice.
Houvesse a vice-governadora, desde a primeira vez que assumiu, se arrojado em algumas decisões, e certamente teria freado o ímpeto do governador viajante, ou ᖠa persistirem as ausências do titular – mudado os rumos de muitas coisas. Uma decisão tomada pelo vice, uma vez investido do cargo de titular, tem validade, tornando em certos casos difícil a sua posterior revogação. Uma deliberação que viesse ao encontro da vontade popular poderia causar uma revolução política e provocar uma salutar agitação no Estado.
Nas mais de quarenta vezes que assumiu o poder, a vice poderia ter tomado igual número de importantes medidas, mas, em nome de princípios de valor discutível, perdeu grandes oportunidades de ajudar ao seu Estado e dar validade à função de governante-reserva, que existe não para fazer figuração mas para governar. Um vice não pode ser destituído pelo titular, então Emília tem agora mais uma chance de valer-se da titularidade que ocupa, de fato e de direito, para justificar porque foi eleita vice-governadora.

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