OPINIÃO DA FOLHA
A tortura, no Brasil, não está presente apenas dentro dos presídios, mas sobretudo na miséria social, que leva milhões ao sofrimento, pela carência alimentar, pela pouca saúde e pelas precárias condições de moradia. É um cativeiro que impõe ao indivíduo um torturante estado de angústia e também de dor física. Estudos demonstram que, em comparação com as populações de nações mais desenvolvidas, as de países onde é maior o desconforto sofrem mais intensamente com a dor, no sentido literal da palavra. E se isso ocorre com as pessoas, ocorre na mesma proporção com os animais, porque a miséria os atinge também. O fenômeno da menor ou maior intensidade da dor passa despercebido, mas é certo que existem povos que sofrem mais e outros menos. E povos sofridos nem se dão conta de que poderiam viver melhor, porque não conheceram níveis mais elevados de bem-estar, por isso nem lutam em busca de padrões que desconhecem ou imaginam não ser para eles.
Nesta quarta-feira o governo brasileiro e o Conselho Internacional para Reabilitação de Vítimas de Tortura (uma ONG não governamental, da Dinamarca) assinaram um memorando de entendimento para acabar com a tortura no Brasil, cujos índices são elevados, principalmente dentro dos presídios e das delegacias de polícia. Se instituições de países mais adiantados se lançam em meritórias campanhas para eliminar, no mundo, as práticas de tortura dentro das casas de detenção, há que se pensar seriamente caso do Brasil nas causas que levam tantos cidadãos à delinquência e à prisão. Assim se afastaria o fantasma da tortura representada pela indigência, que é a agente primeira dos desajustes de comportamento do homem.
Privação e sofrimento são marcas fundas na carne de um numeroso contingente de brasileiros. Dados oficiais sinalizam com 50 milhões de indigentes. Mas essa estatística é maior se for levado em conta que a maioria absoluta dos nossos patrícios não vive uma vida de plenitude, e por isso também sofre pelo desconforto. Por não haverem experimentado o melhor, muitos brasileiros aceitam as condições em que vivem. Mas existem padrões mais elevados, e se um bem é possível para alguns é possível para todos.





