OPINIÃO DA FOLHA
O estado de pobreza que assola considerável parcela da população brasileira leva-a aos mais ardilosos artifícios para sobreviver e buscar a solução dos seus problemas. Em Londrina, famílias em extrema pobreza estão usando recursos da bolsa-escola para pagar seus barracos, nos assentamentos onde moram. Há um desvio de finalidade daquele benefício, que contempla com R$ 15 mensais cada criança carente, para que possa frequentar a escola, mas nem se pode condenar aquela prática porque a moradia é também necessidade fundamental, no caso muito mais que estudar.
Se o chefe de família não tem renda, porque desempregado, e nem um lugar onde morar e no mais dos casos nem qualificação para exercer uma atividade vale-se dos meios de que dispõe para sobreviver e, no caso, não dormir ao relento. As soluções que essas famílias adotam nem deveriam ser punidas, mas antes servir de aviso às autoridades deste país sobre o estado de miserabilidade em que vivem numerosas legiões de patrícios. Indiscutível a importância da criação do programa das bolsas-escola, mas elas atendem apenas a parte do problema. Se ignora que falta a milhões de brasileiros também a habitação, que é o mais elementar dos direitos.
De nada adiantará o governo exigir dos professores que, ao final do exercício, cobrem documentação comprobatória de que aqueles recursos foram adequadamente aplicados. Só um total desconhecimento, por parte das autoridades, sobre a triste realidade social dessas camadas de indigentes, poderá esperar que o dinheiro dessas bolsas não seja utilizado para emergências mais urgentes. E não é apenas para pagar os barracos que o dinheiro das bolsas-escola é desviado, mas antes de tudo para a comida de cada dia.
E, em cima de mazelas sociais como essa, outras ocorrem, como a de miseráveis aproveitadores explorando outros miseráveis na comercialização dos barracos. Impera um clima de medo, porque acontecem também ameaças nesse comércio, revestido de ilegalidade, porém ninguém ousa denunciar ninguém, com temor de represálias. É todo um cenário de fatos deprimentes, que só serão extintos com programas sérios de soerguimento dessas populações marginalizadas e que afastem as soluções meramente assistencialistas.





