A questão dos adolescentes que o Ministério Público quer retirar do trabalho, na Zona Azul de Londrina, não é tão simplista como pode parecer. A posição de que a permanência dos menores no serviço ‘‘não será negociada de forma alguma’’ – porque eles estão sendo ameaçados pelos arrombadores de carros, igualmente menores de idade – é uma postura de endurecimento e de acato à lei, porém a idêntica lei não é cumprida com a mesma eficiência no amparo às legiões de adolescentes que perambulam pelas ruas cidade, expostos aos mesmos perigos. Estes servidores da Zona Azul, ao menos, estão trabalhando e satisfeitos com o que fazem.
Tem havido, sim, ameaças de arrombadores armados contra esses menores, pois eles, apenas com sua presença, inibem a ação dos marginais. Os adolescentes que trabalham na Zona Azul não são e nem devem ser mini-policiais de trânsito e nem denunciadores de ladrões. Eles devem apenas guardar vagas de estacionamento, orientar o motorista para estacionar e sair e cobrar a tarifa, e é o que estão fazendo, há muitos anos, desde que a comunidade londrinense resolveu criar a Escola Profissional e Social do Menor de Londrina (Epesmel) e dar uma ocupação a meninos que viviam na rua.
Eles são hoje 222, mas foram infinitamente mais, porque quando chegam aos 18 anos são encaminhados para outros empregos, e abrem-se vagas para outros meninos. O sistema deu certo, embora tenha algumas falhas e os usuários de automóveis não apreciem muito pagar mais um imposto. Esses adolescentes, se não tivessem a oportunidade de trabalhar, com certeza poderiam estar hoje no lugar dos arrombadores de carros que os ameaçam, estes também menores em grande parte.
A preocupação do Ministério Público deveria ser, portanto, também e acima de tudo, com os menores delinquentes, porque ainda lhes falta o amparo e a ocupação que os livrem da marginalidade. Nem se questiona que o MP deve zelar pela segurança desses jovens, mas os outros desassistidos – que se costuma repudiar porque são delinquentes – precisam de mais ajuda do que estes que estão ocupados na tarefa de cuidar do estacionamento na zona central.
MOs usuários de veículos às vezes reclamam, mas aprovam o trabalho desses fiscais mirins. Outros tantos irão se incorporando a essa legião de trabalhadores, que têm salários regulares e comissão, vale-transporte, recebem por horas extraordinárias e estudam. Se os diretores da CMTU (que cuida do trânsito) e da Epesmel são agora chamados a ir a Curitiba dar explicações à procuradora do MP, bom seria que aquela autoridade também viesse a Londrina ver como funciona a entidade e o sistema de trabalho desses menores da Zona Azul.

mockup