OPINIÃO DA FOLHA
Age em obediência à lei e ao seu dever o Ministério Público, ao deliberar que os adolescentes que operam na Zona Azul, em Londrina, sejam retirados da atividade, como forma de protegê-los contra os arrombadores de carros que os ameaçam. Mas, se a medida tem função protetora, pode gerar um problema social ainda maior. Esses pequenos trabalhadores foram a seu tempo meninos-de-rua, que agora estão sendo ameaçados justamente por outros meninos-de-rua, que não tiveram igual chance de recuperação e de um emprego.
A deliberação do MP áá que até ontem ainda não havia sido executada á se deveu a publicação deste jornal mostrando o perigo a que estão expostos esses meninos. São 222 menores que, por meio de uma campanha já antiga da comunidade londrinense, encontraram na fiscalização do estacionamento pelo qual os cidadãos pagam uma maneira de tirá-los da marginalidade. O sistema deu certo, embora as suas falhas e o protesto de muitos cidadãos, por já pagarem uma infinidade de encargos pelo uso do veículo automotor e ainda terem de pagar mais este.
Se os meninos serão tirados da Zona Azul, poderão retornar às ruas da forma que atuavam antes, e assim engrossarão o contingente daqueles que hoje os ameaçam até de morte. Se a atividade que exercem é perigosa porque os arrombadores de carros, também menores, andam armados eles poderão ser expostos a outra ameaça, que é a do desemprego e de serem impelidos a voltar à delinquência. A falta de ocupação e a ausência de renda são péssimas conselheiras, porque na esteira delas vêm a fome e o desespero.
A providência do MP, embora correta e acauteladora sob o aspecto da proteção ao menor, cria uma situação muito delicada. Em lugar deles virão os guardadores de carros, geralmente adultos e muitos deles ameaçadores, porque em certas zonas e em certas circunstâncias impõem preços fixos para cuidar dos carros, e os depredam se o cidadão se recusar a aceitar seus cuidados. Nessa atividade também ocorre um recurso de ganhar a vida, porque a desqualificação profissional e o desemprego são grandes.
Se a ameaça que os meninos da Zona Azul vêm sofrendo é perigosa e incumbe ao Poder Público ampará-los o que se vislumbra agora é mais insegurança. A solução seria tirar da rua os marginais, pela via de a sociedade proporcionar-lhes empregos e de uma maior ofensiva dos organismos de segurança. Um problema igualmente difícil, porque a violência tem origem social e encontra na miséria a sua grande incentivadora.
Ao propor a retirada desses meninos de sua atividade, o Ministério Público visa protegê-los, mas na verdade os expõe ao perigo de nova desestabilização. Se eles saem da Zona Azul, é preciso que se promova a ação imediata de readmiti-los em outra ocupação, ao tempo em que se deverá buscar caminhos de recuperação para os marginais que arrombam carros, roubam e assaltam e fazem ameaças de morte.





