Uma falta não justifica outra

A omissão de socorro por parte de quem atropela alguém é prevista como delito grave, porém esbarra na recomendação de que o atendimento só deve ser feito por especialistas, sobretudo na área urbana, onde os serviços emergenciais funcionam com satisfatória eficiência. Ademais, quem atropela teme a reação popular e muitas vezes foge, visando a defesa da própria integridade física e de seu veículo, sujeito a depredação. De qualquer forma, é inconcebível que quem provoca um acidente de trânsito, com ferimentos em pessoas, omita-se de providenciar socorro, se estiver em condições de fazê-lo. Se em lugar afastado de atendimento, ele próprio deve fazer o máximo ao alcance para socorrer os feridos.
Mas uma falta não justifica outra, e terça-feira repetiu-se em Londrina um fato mais ou menos frequente: a busca do revide, mediante ação igualmente violenta. Um cidadão atropelou um mototaxista e não lhe prestou socorro, evadindo-se do local. A vítima viria a falecer no hospital, e os colegas, em grande número, tentaram depredar a casa da pessoa acusada de provocar o acidente, só sendo contidos pela ação da polícia.
A crônica policial registra inúmeros casos de taxistas que tentaram linchar assassinos de colegas de profissão. A facilidade de aglutinação e deslocamento os têm levado a essas atitudes, e agora os mototaxistas quiseram fazer o mesmo. É preciso que não se crie tal costume entre essa nova classe de profissionais de transporte de passageiros. Porque, a par do delito de quem não providencia socorro, não podem também eles converter-se em agentes de insegurança e resolverem fazer justiça pelos próprios meios.
Motociclistas, no geral, costumam não ocupar seu próprio espaço nas ruas, que é o de posicionar-se no centro da faixa, mas transitam também pelas laterais. até para aproveitar a oportunidade de avançar e passar adiante dos carros. Este é um procedimento que facilita abalroamentos. Há muita imprudência por parte desses condutores, sobretudo os que trabalham com entregas. Mas a questão que se põe é que os mototaxistas, como classe – se têm o direito de protestar em defesa dos seus direitos – não devem transformar-se em justicialistas, imaginando que têm esse poder.

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