OPINIÃO DA FOLHA
Um homem, movido por forte emoção, entra num ônibus e mata por ciúme um jovem, suposto rival, e a seguir a população enfurecida e igualmente envolvida pela emoção que o episódio gerou, ateia fogo à casa do assassino. Isso diante de um grande número de crianças, conforme mostrou foto deste jornal. Há semblantes de sorriso entre pequenos e adultos, ao lado da casa destruída e ainda fumegante.
Assim, as vítimas emocionais do caso transformam-se em algozes e cometem um delito igualmente violento. O mais grave é que diante dos filhos pequenos e adolescentes, que vêem na atitude dos adultos um exemplo a ser seguido. Eles guardarão na memória que a justiça se faz dessa forma, pelas próprias mãos.
Se contra o homem que mata deve haver a sanção da lei, essas pessoas que atearam fogo à casa não podem ficar impunes, para que elas próprias saibam do mal cometido e isso sirva de ensinamento aos pequenos. Por mais dolorosa que seja, para os familiares, a perda de um filho de 15 anos, não se justifica a ação de revide com a mesma intensidade. A tomar como indicativo o sucedido, imagina-se que o criminoso seria linchado por essas pessoas, se fosse capturado.
Episódios tristes como esses o assassinato e a seguir a busca de vingança infelizmente são comuns. O clamor por justiça é um procedimento natural, mas às vezes a furia incontida deriva para o justiciamento. A crônica policial está repleta de casos de linchamento, ato que remonta aos tempos do olho-por-olho, dente-por-dente, quando era esse o conceito de justiça.
A humanidade evoluiu quanto a esse aspecto, mas resquícios da barbárie ainda se manifestam com frequência, como no episódio de agora. Pelo exemplo e pela emulação, tais fatos semeiam o risco de alastar-se e reforçarem o conceito de que esta é a lei e que assim deve ser.
Já há fortes correntes no seio da opinião pública favoráveis à contrapartida do extermínio e da destruição como forma de conter a violência, o que soa paradoxal, pois o revide é igualmente uma prática insana.
Aqueles que não pactuam dessa política não podem silenciar, pois já basta a violência que nos rodeia, das mais diversas formas, não sendo necessário disseminar ainda mais essa corrente, que caracteriza um grave mal social e uma involução da espécie humana.





