OPINIÃO DA FOLHA
De novo a opção pelo menos pior
As denúncias de corrupção que envolvem a pré-candidata Roseana e seu marido Jorge Murad só devem ter impressionado a família Sarney face à repercussão e aos prejuízos políticos que o caso gerou, porque o estilo de governar sem muita prestação de contas tem sido prática comum no Maranhão. Trata-se de algo que já vem de uma tradição de 40 anos de mando do mesmo grupo que cerca a família. O incomum é a devassa que a Justiça fez em seus redutos, por isso que falta aos Sarney e ao seu agregado Murad, até a habilidade para defender-se, pela pouca prática, eis que em tantos anos de soberania nunca alguém lhes fez cobranças.
Não fosse Roseana haver despontado no topo das pesquisas eleitorais, por graça de uma bem elaborada campanha de marketing pela tevê, a república do Maranhão e os Sarney continuariam na mesma e não seriam molestados. Ao apelar para o recurso de assumir a culpa pela presença, no cofre de sua empresa, da volumosa quantia em dinheiro apreendida pela Polícia Federal, Murad, alegando que eram recursos arrecadados para a campanha, busca salvar a imagem da esposa-candidata. Mas, ao tentar sair de uma situação embaraçosa, entra em outra. Porque tal coleta, se verdadeira, é uma irregularidade, já que Roseana ainda não registrou sua candidatura, e também há que apresentar recibos.
A existência de dinheiro dentro de um cofre não constitui crime, mas é um agravante quando correm pesadas denúncias de que empresas de Roseana e Murad estariam ligadas a processos de desvio de recursos da Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia. Todo esse tipo de embaraçamento nada mais é que um hábito comum na história do manuseio de dinheiro público pelos governos do Nordeste, onde qualquer justificativa tem servido. Mas desta vez a disputa eleitoral não se circunscreve aos feudos nordestinos, onde há um consentido rodízio de comandos mesmo entre ferrenhos adversários, e por tradição não existe o hábito de denunciar ninguém pelos desmandos dos governantes de plantão.
Ocorre que agora a disputa envolve candidato que interessa diretamente ao Governo Federal e também porque seu domicílio eleitoral está mais ao sul, fora do eixo nordestino. Então, por questão não de moralidade pública mas pela circunstância dos fatos, a denúncia de corrupção agora se fez oportuna. E o povo brasileiro assiste perplexo a esse espetáculo, que envolve atores da mesma peça e coloca na mesma rinha disputantes de idêntica estirpe, ao menos quanto à qualidade política. Esta briga não é do povo e nem pelo povo, mas serve ao menos para revelar que, com a eventual eliminação de Roseana do páreo, nada muda e ninguém ganha nada, porque sobra para o eleitor, mais uma vez, apenas a opção de escolher o menos pior entre os que restam.





