OPINIÃO DA FOLHA
A mesma saga desbravadora
A história de Londrina ainda caminha pelas próprias pernas e muitos dos seus personagens das primeiras horas são encontráveis nas ruas e nos sítios e fazendas. Este é um dos privilégios de uma cidade que ficou grande em tão poucos anos, por isso que considerável número de atores ainda compõe o cenário do filme real que aqui começou a ser produzido em 1928. Realidade e cinema agora se fundem, com o início da filmagem, em Londrina, de Gaijin 2, produção da cineasta Tizuka Yamasaki que busca reviver histórias de imigrantes japoneses. O local da cidade cenográfica já pronta não poderia ser melhor: a reserva ecológica da denominada Mata dos Godoy, floresta virgem de quase 300 alqueires situada poucos quilômetros do centro urbano de Londrina e que foi sabiamente preservada por dois pioneiros da colonização, os irmãos Álvaro e Olavo Godoy.
São raros os filmes em que o personagem artístico é o próprio agente histórico. Porque para um dos papéis Tizuka foi buscar, entre outros protagonistas da história verdadeira, a feirante aposentada Aya Ono, que tem 73 anos e chegou no início das derrubadas, trabalhou na lavoura e durante 50 anos vendeu, numa carroça, os seus produtos, enfrentou epidemias, cuidou de família numerosa e trabalhou até recentemente. Agora ela reviverá na tela, como artista, momentos de sua experiência real, depois que deixou a pátria longínqua para, no ponto oposto do planeta, lançar-se na aventura de desbravar a mata, plantar, auto-sustentar-se e produzir riqueza.
O filme vai mostrar um pouco do que foi a presença japonesa em terras paranaenses, estendendo-se até períodos mais recentes, como a geada de 1975, que dizimou inteiramente a cafeicultura paranaenses e nunca mais permitiu a sua reabilitação, a não ser em pequenas áreas. Também retratará o caminho inverso da imigração, representada nos anos atuais pela ida dos nisseis e sanseis para o Japão em busca do emprego que escasseia no Brasil. O evento cinematográfico não visa enfocar toda a epopéia da colonização, que envolveu também outros grupos étnicos, eis que não é um documentário mas centraliza-se numa história de japoneses no Brasil que se inicia no início do século passado e atravessa várias gerações de descendentes nipo-brasileiros. Há no enredo ingredientes de amor, aventura, coragem, sofrimento, perseverança.
A história do desbravamento e da implantação da cidade de Londrina por onde tudo começou, no Norte do Paraná é um rico manancial histórico que já encoraja outro empreendimento cinematográfico, o filme Terra Vermelha, que terá na direção outro famoso cineasta, Ruy Guerra, e cuja rodagem deverá ser iniciada no próximo ano. Assim, esses (entre nós) pioneiros da cinematografia, reeditam, com o seu trabalho e a sua coragem, saga semelhante a daqueles heróis do passado.





