Não é surpresa para as pessoas que conhecem a história vergonhosa dos feudos nordestinos o inconformismo da família Sarney com a presença, agora, de alguém investigando-a e cometendo o ‘‘sacrilégio’’ de violar os seus redutos. Porque os Sarney, no Maranhão, são a própria lei, e portanto são eles que ditam as regras, acima de qualquer poder. Tem sido assim nas últimas quatro décadas, sem que ninguém os molestasse.
Não estranha, pois, a pronta reação do cacique José Sarney, em telefonema ao presidente da República, protestando porque uma ordem da Justiça determinou a apreensão de documentos das empresas da filha Roseana Sarney e seu marido Jorge Murad (secretário de Planejamento do governo maranhense), por denúncia de haverem fraudado recursos da Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia.
O simples desempenho de uma ordem legal, oportunista que tenha sido, transforma-se num impasse de grande proporção entre os dois maiores partidos políticos – o PFL dos Sarney e o PSDB do governo – e que terá reflexos na eleição presidencial de outubro. Roseana, candidata potencial à Presidência da República, e seu pai senador José Sarney, perdem o tom moderado, preparam contra-acusações e acionam o partido para retirar seu apoio ao governo de Fernando Henrique.
Surpreende, também, que a ação da Polícia Federal fazendo uma busca no escritório de uma das empresas de Murad e Roseana ocorra em tempo de pré-eleição, quando a musa do Maranhão desponta no topo da pesquisa eleitoral e ameaça o candidato do governo, José Serra. Parece importar pouco a causa judicial em si – que, pelas denúncias, envolve muito dinheiro público – e sim o oportunismo de acelerar diligências de um processo segundo conveniência do momento.
O que revolta a população brasileira é a postura desses seculares ‘‘senhores-de-engenho’’ do Nordeste ao indignar-se tanto, qual vítimas de uma grande ofensa, por receber a visita ‘‘insolente’’ da Polícia. Postam-se, assim, como intocáveis, qual divindades acima da sujeição às leis terrenas. Se muitas pessoas tinham dúvidas sobre como funcionam as coisas no desolado Nordeste – Maranhão incluído – agora têm uma amostragem, a revelar porque aquele Estado é tão pobre e os Sarney tão ricos e poderosos.
Pode-se imaginar que tipo de influências Roseana Sarney levará para o Palácio do Planalto se eleita presidente da República, como ela tanto deseja e como desejam os Sarney e todo o feudo maranhense que gravita ao seu redor. Roseana no poder serão José Sarney novamente no poder, o marido Jorge Murad no poder, assim como toda a comunidade política que há 40 anos – com os Sarney à frente – mantém pobre e submisso o povo do Maranhão. Mas o que agride mais a população e causa um sentimento nacional de repulsa é a arrogância dos Sarney de ainda situar-se como vítimas, na pretensa condição de intangíveis, um privilégio que é reservado aos deuses.

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