Descansado, após as férias de verão, e amanhecido da folia carnavalesca, o ano brasileiro começa efetivamente hoje, e mesmo assim num dia de meio expediente. No Brasil vivemos quadriênios cujo último ano é atípico, porque sempre coincide com o da Copa do Mundo e o da eleição presidencial, assim como nas demais esferas do poder. Este 2002 é o derradeiro de mais um desses períodos. A voz popular diz que estes são anos de pouco proveito, embora seja uma constante a necessidade de continuar a trabalhar e a viver, resultando em que todos os anos são iguais para o cidadão comum.
Este é um ano de final de governos, então, não tanto pela turbulência das eleições mas sobretudo pelo encerramento de mandato no cargo máximo da República e pela expectativa do que há por vir, estes são anos em que os investidores costumam recuar e adiar projetos. Sob esse aspecto há, sim, uma retração, e estes anos muito especiais dos brasileiros perdem qualidade.
A Copa do Mundo, cujos jogos, no outro lado do mundo, desta vez ocorrerão ao amanhecer do dia aqui na América do Sul, será mais um complicador, embora por curto tempo. O ano de 2002 será, portanto, de expectativa e de decisão, tanto no futebol quanto na política. O resultado do futebol poderá trazer ufanismo ou desapontamento, mas o que o eleitorado decidir nas urnas terá reflexos permanentes sobre sua vida, nos próximos quatro anos e nos seguintes.
A Nação vive, já pela quarta vez, o dilema de ter de escolher entre regimes de centro-direita e de centro-esquerda. Passados vinte anos do final do regime de exceção, que durou iguais duas décadas, o povo continua inseguro ante os governantes que elege e também está inseguro agora – quando tem novamente que escolher – pela carência de grandes opções. Ainda não despontou, nos anos da pós-ditadura, um líder que a nação espera e em quem possa depositar suas esperanças. Mais uma vez a população depara-se ante a triste realidade de escolher entre o menos pior.
Pela escassez de grandes homens públicos, em todas as esferas, a Nação busca encontrar resposta para esta situação nos anos em que a ditadura castrou lideranças emergentes e cujos reflexos estariam ocorrendo agora. Isso também seria uma verdade com respeito ao tipo de cidadãos que o regime militar gestou, pois os que eram jovens e adultos, naquela época, teriam perdido o ritmo e o entusiasmo, e a juventude de agora teria crescido à sombra dessa situação e só agora estaria começando a despertar.
Certo que regimes ditatoriais, em que predomine o calar das vozes e das ações, retardam os avanços da civilização e da politização dos povos. Assim se encontra o ano 2002 dos brasileiros. Alianças as mais espúrias estão acontecendo, ou em gestação. Inimigos outrora mortais fazem composições, e segmentos que estavam unidos se separam. A meta única é a tomada do poder, sem projeto político e sem programa de governo. Mesmo porque impossível tal ocorrer em meio a tantos interesses em jogo, meramente politiqueiros e envolvendo políticos que a opinião pública já execrou no passado recente, por conta de corrupção e desmandos que eles praticaram, o que, no entanto, não os fez afastar-se da cena. No interesse de cerzir alianças partidárias eles continuam valiosos, até porque podem ser captados por outras alas.
E o povo, perplexo, cada vez mais se desencanta, ao saber que dessas costuras nada de bom resultará e nada de melhor acontecerá, politicamente, nesta cansada e sofrida Nação. Até para o partido das oposições o que era um ideal transformou-se numa obstinada corrida para alcançar o poder, a qualquer preço.
Mas, mesmo que tudo isso ocorra, a nação não pode esmorecer, porque a solução sairá de suas mãos e de mais ninguém. O Brasil melhor que todos almejam haverá de ser edificado não por governos, mas pelos brasileiros. Se não há, mais uma vez, grandes opções para renovação dos comandos governamentais, o caminho é o próprio povo cuidar de construir o Brasil.

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