OPINIÃO DA FOLHA
Falando no Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, Luiz Inácio Lula da Silva fez um discurso brando e fora de seu estilo, proferindo frases como a de que é comum procurar defeitos apenas no outro e esquecer de si próprio. E mais: que a fraqueza está dentro de nós mesmos e, muitas vezes, não a assumimos. Mas não parou aí e, referindo-se aos seus próprios anos, afirmou que quando se começa a ficar com os cabelos brancos os discursos não podem ser levados a ferro e a fogo. Entre outras, do mesmo tom, estas foram palavras textuais de Lula. Como se vê, depois de três derrotas consecutivas na disputa para a Presidência da República e do branquear dos cabelos, Lula muda o tom de sua arte de falar e discutir, e isto, naturalmente, surpreende.
Quando o metalúrgico Luiz Inácio da Silva ainda sem Lula no nome próprio mas apenas no apelido era líder popular, ganhou a admiração do mundo com idéias como a de que os trabalhadores não deviam esperar nada dele, mas serem eles os próprios agentes na defesa de seus direitos. Mas ao entrar no casulo de um partido político, limitou-se às dimensões que o espaço lhe reservava e situou-se como mais um, entre os demais líderes partidários. Viu então a sua figura pública transmutar-se, e passou a ser um concorrente, sujeito a ataques, do que até então estava infenso. Ao abandonar seu discurso cosmopolita, perdeu força e poder e teve que sustentar-se nos limites de uma ideologia partidária e sujeito a patrulhamento dentro de seus próprios quadros.
Lula poderia ter permanecido o líder apartidário que faltava ao Brasil, capaz de mover a opinião pública e balançar estruturas governamentais, sem a necessidade de ingressar num partido e desejar ser governo. A partir daí ele só se elegeu deputado federal mas nunca conseguiu ser presidente da República. Agora, em Porto Alegre, ele fez a pergunta: Por que temos tanta dificuldade em chegar ao famoso poder?. Talvez Lula não tivesse consciência, quando líder popular e sem vínculo partidário, que poderia servir muito mais à Pátria com o poder que detinha sem precisar chegar a um posto governamental.
Em sua fala de Porto Alegre, Lula revelou que continua recebendo conselhos de militantes para que radicalize seu discurso, e é aí que reside o temor dos brasileiros: a radicalização das ações desses conselheiros, que serão eles no poder. Pelo menos três correntes sustentam a ideologia petista: a chamada ala rabujenta e raivosa, que não tem grande peso político mas é necessária, sobretudo nas manifestações públicas, aquela parafraseando Sartre semelhante ao burro que derruba um celeiro mas não sabe construí-lo; a ala revolucionária, aparentemente adormecida, que não é um braço visível e identificável no partido mas capaz de organizar-se e atuar; e a ala moderada, formada pelas cabeças coroadas a dos cabelos brancos que não quer mais levar as coisas a ferro e fogo. A conciliação destas três partes poderia criar o ponto de fusão de um bloco apto a governar o País. Tal indefinição sugere a ausência de um programa consistente de governo, e este é o xis da questão que leva ao recuo do eleitorado embora as demais opções não sejam melhores.
A postura conservadora dos brasileiros leva-os a apoiar candidaturas aparentemente mais seguras, embora elas, pelos seus partidos, nunca tenham levado a nação a avanço algum, eis que se progressos acontecem, são por conta do Brasil-cidadão e não dos governos; ao contrário, eles atrapalham muito. Longe de pensar que o povo não quer um trabalhador na Presidência, como apregoam alguns ideólogos do PT. São as idéias de radicalização entre elas as greves sindicais que assustam a sociedade. A nação, que é constituída por uma comunidade trabalhadora não vinculada ao PT e a nenhum outro partido, também não quer um governo de ideologia que possa ir na contramão do capitalismo produtivo. Ao afirmar que alguns empresários têm cara de sonegador, Lula contrariou a amenidade inicial de seu discurso e praticou um de seus obcecados exercícios, que é atacar a classe empresarial esta classe heróica que segura o Brasil e é tangida por enorme carga tributária.
Falar inglês e francês não é necessário a um Presidente embora ajude porque as nações do mundo falam e entendem a linguagem dos seus próprios interesses, e dia chegará em que não precisaremos procurá-las, porque elas nos procurarão e falarão no melhor português. O Brasil ainda não fez um experimento de governo central petista, mas se o PT quer chegar ao poder terá de saber expurgar as suas bases radicais, porque dentro de um governo elas mais prejudicarão que servirão. O temor do partido deve ser, pois, não o poder capitalista mas o que as suas alas extremadas inspiram de insegurança no seio das massas. As vantagens iniciais de Lula nas pesquisas têm acabado no momento do voto, como foi em três eleições seguidas. O PT, pois, tem dentro do próprio PT a resposta para a dificuldade em chegar ao famoso poder.





