OPINIÃO DA FOLHA
Se certas modalidades de violência que hoje se pratica no Brasil foram copiadas de modelos norte-americanos, pela via do cinema e dos filmes da televisão, a insegurança em nosso país, hoje, é mais problemática que nos Estados Unidos. Só o Estado de São Paulo teve em torno de 300 sequestros no ano passado, contra apenas 70, no mesmo período, em todo o território americano, e assim mesmo a maioria não aconteceu, lá, para obtenção de dinheiro e sim por razões de ordem familiar.
Segundo as estatísticas, são raros os casos de polícia, nos EUA, que ficam sem elucidação, e os culpados são sempre punidos, tanto os das classes sociais mais baixas quanto das altas. Naturalmente que não é assim no Brasil, onde a polícia carece de suficiente número de efetivos, não dispõe de equipamentos adequados, tem baixos salários o que facilita a corrupção no próprio meio os presídios são poucos, promíscuos e inseguros, e no topo do sistema está a elasticidade das leis brasileiras, que possibilitam a quem tem dinheiro contratar bons advogados e arrastar uma causa pela eternidade dos anos.
Nos EUA a segurança interna é altamente satisfatória. Quando algo ocorre que exija a presença da polícia, os cidadãos a acionam e o atendimento é imediato. Ninguém a teme, mas ao contrário, sente-se seguro com a sua presença. A polícia e as cortes da Justiça são respeitadas pela população, porque também os cidadãos recebem das autoridades o mesmo respeito.
Naturalmente que, também lá, nem sempre foi assim e que ainda agora ocorrem falhas no sistema. Em Nova York, a maior cidade do planeta, um só homem o então prefeito Rudolph Giuliani, que governou até dezembro último conseguiu em 8 anos de mandato reduzir em 65% a criminidade. Contou, naturalmente, com recursos financeiros e operacionais, mas acima de tudo prevaleceu a sua decisão pessoal de enfrentar o problema, com audácia.
Há a considerar que, em face do elevado padrão de vida dos norte-americanos, existem lá menos delitos contra o patrimônio, e também porque o salário dos agentes é satisfatário, o que diminui os casos de corrupção no seio do organismo policial. Só agora começa a funcionar em São Paulo o sistema informatizado que demonstra onde acontece o maior número de crimes e qual a sua qualidade. Isto foi implantado em Nova York por Giuliani e o resultado foi surpreendente. Assim, a polícia passou a prever, com base no que ocorreu num mês, o que iria acontecer no mês seguinte, e onde. Ademais porque NY tem 40 mil policiais nas ruas.
O ousado prefeito novaiorquino que ao assumir encontrou um sistema policial caótico investiu tudo no seu projeto de tolerância zero, levando ao cárcere os grandes delinquentes e punindo inclusive quem jogasse um simples papel no chão. Primeiro ele teve a coragem de demitir os policiais corruptos e, naturalmente, premiou com melhores ganhos os honestos. Os cidadãos sentiram que havia um forte poder de comando na cidade e isso também contribuiu para intimidar o avanço dos marginais, que passaram a ter certeza de punição. Os cidadãos voltaram a confiar na polícia e esta sentiu mais responsabilidade.
Se o modelo dos crimes praticados na grande nação foi fácilmente assimilado no Brasil pelas legiões marginais ou propensas à delinquência, o novo sistema de tratar com a criminalidade não foi absorvido pelas autoridades. Nossos governantes, que tanto viajam pelo mundo, não observam as grandes soluções que ocorrem nos países desenvolvidos e não absorvem os seus ensinamentos.
Então, se a mentalidade governamental brasileira se voltar para a solução dos grandes problemas sociais e tiver boa vontade e pulso firme para enfrentar a onda de crimes que assola o país, será possível baixar consideravelmente os índices de violência. Se acontece nos EUA, pode acontecer no Brasil; se aconteceu na maior cidade do mundo, pela inspiração e decisão de um único homem, também pode acontecer nas cidades brasileiras.





