OPINIÃO DA FOLHA
O Banco Central informa que o desaquecimento da economia e a alta dos juros fizeram com que a inadimplência nos empréstimos bancários aumentasse 45%, no ano passado. Só no cheque especial, que cobra os juros mais altos, o crescimento da inadimplência foi de 63%. Se o BC mostra esses índices, deveria preocupar-se com a consequência, que é a economia estagnada, porque o problema mais grave não é as pessoas estarem em dificuldade para cumprir seus pagamentos, eis que este é apenas um efeito.
A retração econômica tem origem justamente no alto custo do dinheiro. Está, então, dentro do próprio Banco Central o caminho para a solução daqueles dois problemas. Mas tem acontecido exatamente o contrário: em janeiro de 2001 os bancos cobravam, em média, juros de 63,6% ao ano em seus empréstimos para pessoas físicas, e o ano se encerrou com a taxa subindo para 71,8%. O resultado, naturalmente, não haveria de ser outro senão mais inadimplência e mais desaceleração econômica.
A propaganda governamental, estribada em devaneios e não em indicadores consistentes, apregoou a expectativa de que 2001 contemplaria o crescimento econômico em 4% a 5%, mas o que se viu foram minguados 2%. Surpreendente é que o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, diz que o atual nível da inadimplência é normal e não preocupa. Não se sabe se ele quer dizer que isso não preocupa o BC ou se não preocupa a nação. Porque se pensar que a população não está preocupada, equivoca-se.
A visão da equipe econômica do governo é apenas a que se relaciona com a execução de sua própria metodologia. Não há preocupação com o desaquecimento da economia que esta sim tem a ver com a vida dos cidadãos e com a garantia da estabilidade social mas apenas com as possíveis consequências dessa retração sobre segmentos como o regime bancário. Exalta que as instituições financeiras estão bem protegidas de eventuais calotes.
Seria interessante saber o que pensa a comunidade econômica governamental acerca da situação não daquelas instituições, mas do empresariado brasileiro e dos cidadãos em geral; sobretudo estes, que estão aprisionados pela sufocante apertura econômica, pelo desemprego, pela violência urbana e por mazelas sociais de toda ordem.
A insegurança hoje vivida pelos cidadãos, de forma como nunca aconteceu antes, é o resultado da miséria social gerada pelo desemprego e pela falta de perspectiva para um numeroso contingente populacional. Na origem dessa situação encontra-se a estagnação do fluxo da moeda, que é a alavancadora do desenvolvimento econômico mas não está girando, porque na mão de poucos e cara.
O governo busca dificultar a circulação do dinheiro, porque teme uma corrida para o consumismo e que isso gere inflação. Contraria, assim, todos os fundamentos da sabedoria econômica. E assim afunda o país na recessão, a registrar, cada vez mais, altos índices de inadimplência, de instabilidade social e de insegurança.





