OPINIÃO DA FOLHA
Grandes reformas acontecem na crista de movimentos reivindicatórios, ou quando um problema chega a tal ponto de exaustão que a sociedade não mais o suporte. No caso da greve das universidades estaduais do Paraná, legítima quanto à reivindicação de melhoria salarial, os líderes da ação grevista extrapolam os limites, pela intransigência em voltar ao trabalho enquanto prosseguem as negociações e corre o tempo solicitado pelo governo para conceder os reajustes.
Melhor que aguardar, os grevistas preferem o radicalismo de continuar a paralisação, que não exige esforço. Ademais, porque eles estão recebendo os salários regiamente, caracterizando, moralmente, uma apropriação indébita de dinheiro do povo, já que recebem sem estarem trabalhando. Contra isso se volta a população, que é mantenedora das instituições públicas e a primeira que deveria ser considerada, no proceso. Mas tal não ocorre.
A extensão da sociedade representada pelos estudantes sem aulas não deseja a continuidade desta greve. Contudo, não se mobiliza, como deveria, porque em momentos graves é mais de falar e queixar-se do que de agir. E quando a população mantém-se na comodidade do imobilismo, lideranças isoladas assumem o comando e, com o caminho livre, apelam para ações extremas, como esta paralisação que já dura exatos 4 meses e meio.
Neste clima as soluções ficam mais difíceis, porque contaminadas por antagonismo, postura ideológica, desafio, enfim uma situação de força, em prejuízo da inteligência e da sensatez da negociação produtiva. A sociedade quer o fim da greve, mas, a essa altura, isso pouco conta para os comandos grevistas, que não acatam nem as decisões da Justiça determinando a volta ao trabalho.
Está implantado um regime de desacato, que vai se aproximando da anarquia, o que quer dizer o fim da ordem. O estudantado está cativo da greve e os grevistas cativos dos comandos sindicais. Os professores e servidores em greve estão há seis meses sem reajuste salarial, mas agora o governo acena com uma reestruturação de cargos e salários e com um reajuste, que, porém, depende de suplementação de verba orçamentária para este ano, e isso terá de ser aprovado pela Assembléia Legislativa, que está em recesso e volta à atividade no mês que vem. O governo já anunciou, ao fazer o balanço de fim de ano, que as contas públicas estão em dia, o que significa capacidade de assumir o reajuste pedido pelos servidores.
Então, embora este seja um período de férias regulares, a greve precisa terminar imediatamente para que as aulas perdidas sejam repostas e os universitários não percam o ano escolar, mesmo que, de qualquer maneira, já tenha ocorrido uma defasagem na carga de aprendizado dos alunos. Será necessário um esforço redobrado dos professores para repor o que a classe escolar deixou de receber.
Se a greve tem um cunho reivindicatório, sabe-se que é movida por uma forte ideologia política, que é a da insurgência contra qualquer forma de poder, que não seja o seu próprio. As três importantes universidades públicas estão à mercê de um pequeno grupo de mentores, porém com grande poder de articulação para deflagrar e sustentar movimentos dessa natureza.
Mais uns dias e começa o novo ano escolar, sem que o anterior tenha sido concluído. Nesta hora difícil, em que parece decretada a falência do diálogo, é preciso que prevaleça a sensatez e que os professores e servidores em geral retornem plenamente ao trabalho. A comunidade das cidades atingidas Londrina, Maringá e Cascavel deve mobilizar-se nesse sentido, exigindo o fim dessa paralisação, que já caracteriza um ato de insubordinação e de violência.





