OPINIÃO DA FOLHA
A redução do preço da gasolina nas bombas dos postos de combustível, neste início de ano, e o recuo do dólar a partir das últimas semanas de 2001, não estão tendo influência na parte da economia diretamente ligada ao consumidor. Desde os primeiros dias de 2002, os preços dos produtos de primeira necessidade foram alterados para cima, com o realinhamento atingindo praticamente todos os itens dos gêneros alimentícios, de higiene e, enfim, de consumo indispensável.
A alta verificada pelo consumidor nas prateleiras dos supermercados, infelizmente, não confere com os índices oficiais de inflação. Esta constatação, na realidade, faz parte do cotidiano do brasileiro, que por isso tem muita dificuldade para entender a economia que se pratica no País e de que forma ela é mensurada. Pois enquanto os índices oficiais costumam aparecer abaixo de um ponto, os preços pagos pelo consumidor para se alimentar, vestir, calçar, limpar sua casa e viver, aparecem normalmente acima dos 10 pontos.
Para esse consumidor que é a maioria no País, cuja formação não lhe permite um entendimento sobre os fenômenos da economia, o que parece é que existem duas fórmulas para calcular a inflação ou a deflação. Uma delas é a oficial e envolve a participação dos estudiosos dessa área. São eles que dizem se o País vai bem ou mal, com seus índices que chegam a ser animadores em determinados meses. A outra é a do próprio consumidor brasileiro. Normalmente chefe de família, é ele que trabalha os números da economia doméstica, comparando o que recebe mensalmente com o que pode gastar. E conclui, a cada novo ciclo de 30 dias, que seu ganho fica estagnado e o seu gasto apresenta variação mensal, embora a relação das compras seja a mesma.
O resultado desse balanço é que deixa o brasileiro perplexo e confuso. Numa economia de livre mercado, é natural que o quilo do tomate suba até para R$ 2,00 quando o período é de entressafra do produto, e o abacaxi possa ser comprado até por R$ 0,50 a unidade em qualquer esquina das cidades, no período em que esta fruta sobra no mercado e tenha que ser vendida a preço de liquidação. Mas o que o consumidor não compreende é que junto com a alta do tomate a farinha também subiu, o arroz sofreu saltos no preço, o papel higiênico passou por remarcação impiedosa, o sabão em pó acrescenta valores expressivos na soma final do orçamento doméstico.
E não somente estes itens, mas a maioria está pesando muito mais no bolso do consumidor do que em dezembro do ano passado. Esse fenômeno, entretanto, não tem uma avaliação dos responsáveis pela economia do País e, ao que parece, nem ao menos merece uma reflexão. Cabe, assim, ao consumidor, achar que a indústria e o comércio aproveitaram a virada do ano para promover reajustes, que atingiram todas as grandes redes e interferiram nos pequenos varejistas. Sendo assim, resta ao brasileiro imaginar que as altas nos preços dos gêneros de primeira necessidade ocorreram como resultado de uma espécie de acordo, e não por exigência do mercado.
É papel do governo, através das autoridades econômicas, mostrar à população que se os preços dos produtos sobem, há algum fator que os tornem mais caros. Se a causa está relacionada ao mercado, essas autoridades devem informar se é a entressafra de algum ingrediente do produto ou o custo do frete que pressiona o preço para cima. E se a causa é fruto de um realinhamento acertado, mais do que explicação as autoridades econômicas devem, para o consumidor, uma ação efetiva e rigorosa.
Caso contrário, o orçamento doméstico apertado, com a receita estagnada e as despesas em elevação mensal, tornarão este consumidor, que pelo regime político brasileiro vota para escolher seus representantes, cada vez mais incrédulo com os nossos representantes no executivo e no legislativo.





