A greve dos motoristas e cobradores de ônibus urbanos, em Curitiba, é atípica, porque se volta também contra o sindicato da classe. Ocorre que o Sindicato dos Motoristas e Cobradores de Curitiba e Região Metropolitana (Sindimoc) é acusado por seus filiados de pactuar com o seu congênere patronal, o Sindicato das Empresas de Transporte Coletivo, e assim contrariar os interesses daqueles profissionais.
Os grevistas reivindicam, além do aumento salarial de 33%, que também a diretoria do Sindimoc seja destituída, porque negociou um acordo de 11% sem consultar ningúem. O resultado foi a greve, com força reivindicatória duplicada. Todos foram apanhados de surpresa com essa paralisação, cujos prejuízos e transtornos são grandes, pois metade dos 2.500 ônibus da Capital parou.
O que se lamenta nesse movimento é que ele irrompeu abruptamente. Surpreende que, se o sindicato da classe perde confiabilidade, a ponto de ele próprio ser não o agente mas a razão da greve, imediatamente um novo comando se instala e decreta a parada dos ônibus, e a categoria adere, sem medir consequências e parecendo pouco importar-se com a situação dos usuários.
Greves são formas de violência, se já não bastasse a vivida pelos cidadãos com a onda de assaltos contra o patrimônio, que toma conta das cidades brasileiras. As guerras e o terrorismo clássicos que não temos e que tanto lamentamos nos países que vivem constantemente em convívio com eles são vividos por nós na forma dessa insegurança e desse terror, que nos ameaçam dia e noite.
Greves como a das universidades estaduais do Paraná, a paralisação dos ônibus de Curitiba e todos os movimentos que quebrem o ritmo da ordem pública são idênticas manifestações de violência. Todas relacionadas com a condição econômica. Porque é o pouco ganho dos trabalhadores – aqueles que conseguem obter e manter trabalho – e o ganho nenhum dos desempregados que levam às lutas reivindicatórias, às greves e à violência contra o patrimônio alheio.
Nunca como agora, no Brasil, foi tão grande a violência na forma de atentados e sequestros com o fim de obtenção de dinheiro. Na maioria dos casos, simplesmente para a compra de alimentos, embora não se deva ignorar os assassinatos no universo do tráfico de drogas e a mais bárbara modalidade de crime que é a das execuções sumárias.
No caso da greve de Curitiba, ela envolve de um lado a categoria patronal, que para conceder aumento salarial argumenta com a necessidade de passar a conta para os usuários, – e estes já operam no limite – de outro uma diretoria sindical rejeitada, um novo comando considerado ilegítimo e afinal os grevistas, que desejam o reajuste. E mais: não aceitam o repasse para o preço das passagens. Até aí agem com senso de solidariedade, mas sem buscar conhecer a realidade das empresas. E nesse envolvimento entra o Poder Público municipal, que é o regulador do sistema e quem deve mediar o impasse. De sua vez, o Tribunal Regional do Trabalho considera essa greve abusiva (à hora em que encerrávamos este texto realizava-se uma reunião para tentar solucionar o impasse).
Todos esses são transtornos que, no balanço final, significam o resultado da ausência de diálogo produtivo e da desastrada política econômica do governo federal, que desestimula o desenvolvimento social, freia o progresso das empresas e, ademais, as onera com a pesada carga tributária e com os elevados encargos sociais sobre os salários, tudo isso inibindo empregos e melhoria de ganhos para os trabalhadores e, como consequência, mais retração dos negócios, as greves, o desemprego, a violência, uma coisa puxando a outra.

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