OPINIÃO DA FOLHA
Se não nas cúpulas dos partidos, ao menos nos quadros partidários ainda existem correntes radicais que defendem regimes de poder absoluto e que alimentam idéias de luta armada. Seria ingenuidade imaginar que hajam desaparecido e que ainda não pulsem, latentes, grupos extremistas do passado recente, e que novos não vieram se plasmando.
O que se via no período da última ditadura eram confrontos que aconteciam na clandestinidade entre facções violentas de direita e de esquerda: os pelotões militares, de um lado, e os grupos guerrilheiros e os que praticavam atentados urbanos, sobretudo assaltos a bancos para alimentar a contra-revolução.
Ontem os presidentes do diretório estadual do Partido dos Trabalhadores (PT) e do diretório de Curitiba contestaram, através de cartas que publicamos, os dois editoriais deste jornal que trataram do caso das ameaças e atentados cometidos recentemente contra governantes e dirigentes do PT. E exageraram ao declarar que a Folha, com tais escritos, deflagrou, no mínimo, uma campanha anti-PT.
Melhor seria os dois dirigentes se aterem ao sentido do que escrevemos: que estão escapando do foco das atenções as cartas anônimas ameaçando governantes e senadores petistas, e que elas afirmam partirem de uma denominada Força de Ação Revolucionária Brasileira (Farb), suposta falange que visa acabar com políticos da esquerda que estão se aproximando de partidos de centro-direita, como diz em suas ameaças.
Se o PT supõe, sem ter indício algum, que as ameaças partem de corporações de ultra-direita, por que descartar que um grupo radical de esquerda realmente possa existir? Ao menos este, de alguma forma, mostra sinais. A Folha apenas levantou a hipótese de que a Farb possa ser verdadeira e que seus propósitos sejam mesmo aqueles contidos nas cartas ameaçadoras. Porque o PT evita falar dessa suposta organização?
Não há como tentar ignorar que, no período ditatorial, havia grupos radicais de direita e de esquerda. Mencionar apenas os torturadores do Exércio e da Polícia daquele tempo, como faz o presidente do PT estadual, e ele perguntar com ironia se aqueles torturadores e assassinos teriam migrado para o Partido dos Trabalhadores, é tirar do cenário os radicais da esquerda revolucionária que também existiam. Para onde foram eles? Se radicais da direita ainda hoje engraxam os coturnos quando alguma convulsão social abala a nação, é válido supor que tal ocorra também com os de esquerda.á
Os editoriais da Folha apenas alertaram para os indicadores representados pelas cartas ameaçadoras e para o contéudo delas. São hipóteses, porém baseadas em algo existente e que o jornalismo livre tem o direito de levantar. Não existe campanha deste jornal contra o PT e sim um exercício profisisional jornalístico, ademais quando a própria Delegacia de Ordem Política da Polícia Federal abre inquérito para investigar possíveis implicações políticas no caso. E certamente a PF não deixará de investigar também essa suposta Farb e o seu anunciado propósito de atingir políticos de esquerda que estejam se aproximando de partidos de centro-direita.
Consistentes ou não, esses fatos só serão apurados com as investigações. O certo é que o PT não é intangível e não pode garantir que, num quadro enorme de filiados, não estejam aninhadas, também, correntes da antiga esquerda radical. Isto não significa que as cúpulas do partido desejam um governo de absolutismo e alimentem idéias radicais, mas num universo de milhares de membros não se pode descartar a possibilidade de existirem segmentos que professem idéias extremistas.
O presidente do PT afirma que os editoriais da Folha visam direcionar as investigações para dentro do próprio PT, e que, assim, os verdadeiros assassinos podem ficar tranquilos. Quem são os verdadeiros assassinos? As duas cartas contestatórias do PT estão, naturalmente, carregadas de ideologia e derivam para comparações inconsistentes, repetindo velhos discursos que colocam o partido sempre na posição de vítima.
Não há dúvida de que, agora, o Partido dos Trabalhadores está sendo duramente tangido com essas ameaças, que culminaram com os assassinatos de dois de seus prefeitos, sérios e respeitados em suas comunas. Os editoriais da Folha apenas alertaram para o conteúdo político-ideológico das ameaças e que o dedo da investigação aponte também para a hipótese de possíveis ações radicais emanadas de dentro do próprio partido. Sequestradores e assaltantes comuns não fazem ameaças prévias.
Recentemente este jornal criticou a virtual candidatura da pefelista Roseana Sarney, pelo que traz de herança dos feudos nordestinos, e nem por isso foi qualificado de anti-PFL. Se o PT pode afirmar, aleatoriamente, que as ameaças e atentados partem de grupos de ultra-direita, por que não supor que possam partir também da esquerda radical, até porque há indícios nesse sentido? O PT, certamente, não deseja que essa possibilidade possa progredir. Melhor que seja a outra...





