Embora as duas palavras signifiquem atos de terror, vivíamos no Brasil, até agora, apenas a violência cometida contra o patrimônio, na forma de assaltos a cidadãos, a residências, a casas comerciais e outros bens, como veículos e seus pertences, e também os sequestros, estes igualmente para fim de obtenção de dinheiro. Haviam cessado os atos de terrorismo clássico, de caráter político-ideológico, que amedrontaram os cidadãos brasileiros nos tempos de chumbo da ditadura militar. Um terrorismo que era praticado pelas correntes da direita e na contra-partida também pelas da esquerda armada.
Agora esse terrorismo político volta e se soma ao clima já violento vivido pela população. Em tempos de vivências terroristas no mundo, sobretudo no Oriente Médio (Israel e países árabes) e nos Estados Unidos, agora o Brasil adota o modismo da globalização e ingressa também nessa prática. Os assassinatos dos dois prefeitos do PT – de Campinas e Santo André – e as ameaças a outros, do mesmo partido, bem como a senadores petistas, são atos de puro terrorismo político. Toma-se conhecimento agora de que o Ministério da Justiça tem um dossiê de 30 páginas com 94 denúncias de mortes e ameaças sofridas em todo o País por membros do Partido dos Trabalhadores, de 1997 a 2002.
Mas está escapando do foco das atenções as cartas apócrifas, contendo ameaças a governantes do PT, atribuídas a uma suposta Força de Ação Revolucionária Brasileira (FARB), que já ‘‘assumiu’’ a autoria do assassinato do prefeito de Campinas. Essa falange – se é que existe e possua, como diz em suas cartas, 50 militantes – não seria de linha ultra-direita, visando o extermínio de membros do PT, como afirmam as cúpulas do partido – mas ao contrário, teria uma ideologia extremada de esquerda e estaria combatendo a tendência dos petistas moderados (justamente os que estão no comando de governos estaduais e prefeituras) de inclinar-se para idéias de centro-direita.
O oportunismo do momento pré-eleitoral, com o candidato petista à Presidência despontando nas pesquisas, mobiliza as lideranças do PT a semear a idéia de que o partido está sendo vítima de atentados e ameaças de grupos de direita, semelhantes aos Comandos de Caça aos Comunistas dos tempos da ditadura. Tal pode ser verdadeiro ou não, pois nada existe de concreto além de hipóteses. Já, ao contrário, existem as cartas anônimas que dizem que a FARB existe ‘‘para acabar com políticos da esquerda que estão se aproximando de partidos de centro-direita’’. Não se pode descartar, pois, que a suposta FARB seja mesmo um grupo de esquerda radical, defensora da luta armada.
Seria, portanto, a postura mais bem comportada do PT – agora não só partido mas também governo – que estaria acirrando os ânimos das adormecidas (e agora supostamente despertas) correntes revolucionárias de esquerda. Seria o PT devorando o próprio PT. Este é um ato comum nas corporações, e no último regime ditatorial não faltou quem atribuíse a morte do presidente Artur da Costa e Silva a um atentado urdido dentro do próprio sistema. Justamente pelas tendências mais liberalizantes do então Presidente, em cujo governo ᖠe não por vontade dele – foi criado o temível Ato Institucional nº 5, que fechou o Congresso, cerceou ainda mais as liberdades e intensificou o terrorismo e a violência contra as esquerdas.
Não se discute o que há de verdadeiro ou de blefe nessa denominada FARB, mas os brasileiros não deverão acreditar em tudo que emanar dos políticos, sobre o episódio, porque em ano eleitoral tudo o que se disser será conveniência e oportunismo políticos. O PT apreciará insistir que há uma guerra de extermínio de governantes petistas, comandada por correntes da ultra-direita, porém isso é apenas uma suposição, que não se estriba em nenhum indício concreto.
De qualquer modo, além destes dois atentados de cunho político e das ameaças anônimas contra integrantes do PT, impera no Brasil o terror da violência urbana, em cuja raiz estão os problemas da miséria social, agravada intensamente nestes sete anos de governo de Fernando Henrique Cardoso e do poderoso ministro Pedro Malan. A desastrada política econômica do governo federal, voltada para o monetarismo, colocou a nação num cativeiro e na retração, com a consequente onda de desemprego e na esteira disso a desordem e os atentados contra o patrimônio alheio. Somando-se a isso e desestruturação dos organismos de segurança e o contágio da corrupção nesse meio, o resultado não haveria de ser outro senão este que a nação desassistida está vivendo.

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