OPINIÃO DA FOLHA
Um clima de terrorismo cerca o Partido dos Trabalhadores (PT) e é difícil não associar as mortes dos prefeitos de Campinas e Santo André a grupos radicais dentro da própria agremiação, por mais cautela que os dirigentes petistas e as autoridades tenham em admitir essa possibilidade.
No fim do ano passado quinze prefeitos do PT, no Estado de São Paulo, e senadores do partido, foram ameaçados de morte, através de cartas assinadas por uma suposta Força de Ação Revolucionária Brasileira (FARB). No estilo dos grupos terroristas tradicionais, e tentando, ao menos na semelhança de nome, imitar a FARC colombiana, esse possível grupo reivindicou a autoria do assassinato do prefeito de Campinas, também petista, Antonio Costa dos Santos, ocorrido naquela época.
A FARB diz, nessas cartas, haver sido fundada em 1998, com 50 membros, para acabar com políticos da esquerda que estão se aproximando de partidos de centro-direita. Tendo ou não a quantidade de membros anunciada, o fato é que algo existe, ou essas cartas com ameaças não teriam surgido. Alguém as idealizou e as remeteu, e a própria manifestação de assumir o crime atesta a existência de uma falange semeando esse terrorismo.
Quanto aos dois bárbaros assassinatos, ainda não decifrados, eles constituem indiscutíveis atos de terror, que, pelas suas características, foram praticados por profissionais. As cúpulas do PT quererão caracterizar esses atentados e ameaças como perseguição a governantes petistas, supostamente partida de correntes antagônicas de extrema-direita, ou mesmo de um grupo de extermínio, da mesma linha, que desejaria impedir o avanço desse poder político. Estas duas possibilidades são mais remotas do que a outra, a de que haja realmente uma ala extremista no corpo do partido, desejando o endurecimento da linha ideológica, no estilo revolucionário e que já encontrou abrigo no outrora braço armado das esquerdas brasileiras.
Essa corrente não aceitaria aproximações com a centro-direita, o que o experimento de ser governo não pode dispensar. Grupos ideológicos extremados, adeptos da luta armada, não conseguem imaginar senão um governo de poder absoluto, gestado na crista de uma ação revolucionária e não de integração multipartidária e democrática. E é a esse regime que o PT moderado deve adaptar-se, agora que domina politicamente grandes cidades.
Os episódios dramáticos representados pelos assassinatos dos prefeitos petistas de municípios da importância de Campinas e Santo André podem beneficiar o candidato do partido à Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva, ou prejudicá-lo. A idéia de um movimento terrorista anti-PT induziria o eleitorado boa parte dele ainda guardando tristes lembranças da recente ditadura de extrema-direita a uma simpatia pela candidatura de Lula. Mas se for comprovada a existência dessa denominada FARB e de ser ela a autora dos dois crimes, e de eles haverem sido cometidos pelas razões expostas nas cartas de ameaça, então as coisas poderão inverter-se.
Lula não conseguiria governar num regime de absolutismo, pois num país democrático e de multiplicidade partidária há que haver concessões, e a existência de eventuais grupos terroristas a patrulhá-lo criaria um poder paralelo e um clima de insegurança e de ingovernabilidade. O que ocorre em Campinas e Santo André serve de amostragem. Um clima de terrorismo já está implantado, e se não se prova que este é um movimento da suposta FARB, também não se consegue relacionar esses atentados a simples latrocínio, a sequestro para fim de obter dinheiro ou a vingança pessoal.





