O governo federal anuncia, finalmente, a intenção de aprimorar as informações sobre os modelos climáticos e a previsão da vazão dos reservatórios das usinas hidrelétricas. A decisão, porém, quando deveria ser fruto de um planejamento para evitar prejuízos para o país, é algo que já vem tarde e, ao que se percebe, só foi definida após os apagões e os racionamentos de energia que se tornaram um inconveniente na vida empresarial e da população como um todo, a partir do ano passado, afetando diretamente regiões economicamente estratégicas.
A justificativa do governo soa como uma admissão de culpa, quando diz não querer o Brasil como refém da média histórica das chuvas ocorridas nos últimos 70 anos, como mostrado em reportagem publicada ontem por esta Folha. Aprimorando tais informações, de acordo com os técnicos do Ministério da Ciência e Tecnologia e dos comitês gestores do Fundo de Recursos Hídricos e do Fundo Energético – que foram mobilizados pelo Operador Nacional do Sistema pata desenvolver projetos de pesquisa nas áreas de climatologia e de recursos hídricos –, evitaria-se novas surpresas com a principal fonte de energia do País.
Ora, se esta é a principal fonte de energia, por que só agora a preocupação com ela? Teria, realmente, sido surpresa a necessidade de apagões e racionamentos? Estudiosos do assunto já defenderam que as medidas emergenciais do ano passado foram por culpa da despreocupação do governo federal com o problema. E quando se fala em governo, julga-se necessário que a referência que se faz não é somente para o atual, mas estende-se aos seus antecessores, que numa forma direta e objetiva de qualificar teriam sidos omissos, também, ou desleixados. Eís que tais estudiosos, dentre os muitos que se manifestaram sobre o tema, foram enfáticos em afirmar que a crise da energia elétrica poderia, no mínimo, ser amenizada se medidas fossem tomadas antes.
Choca, consequentemente, a impressão de que na ótica dos que teriam que se preocupar com o planejamento do País na área de energia, a suposta abundância de recursos hídricos garantia sustentabilidade ao sistema existente. A crise que abate o Brasil é a prova incontestável de que a situação não é esta. E se algo deve ser louvado, nesta medida tardia, é o fato simplesmente da ação em busca de solução já ter sido desencadeada.
Para isso, o Fundo de Recursos Hídricos, que só começou a operar em setembro do ano passado, quando a crise da energia já causava prejuízos, destinou a partir de sua criação R$ 20,6 milhões para 123 projetos, alguns deles voltados à formação de profissionais especializados em gerenciamento de recursos hídricos e bacias hidrográficas. Mas sabe-se, por outro lado, que na área de climatologia apenas um estudo sobre medidas da umidade do solo já foi contratado, a um valor de R$ 1,7 milhão. É muito pouco, para quem diz estar preocupado.
O clima não pode e nem deve ser regido pelo homem, embora o meio ambiente sofra interferências promovidas pelo ser humano. Na maioria dos casos, essas interferências, infelizmente, são desastrosas para a natureza. Portanto, qualqur medida visando a solução do problema de energia no Brasil deve contemplar, inclusive, a conscientização do homem. Apenas puní-lo, promovendo apagões e decretando racionamentos, jamais será uma lição para que ele volte seus olhos para as questões ambientais. Com esta abordagem, a própria sociedade brasileira entenderá se apenas um estudo sobre climatologia e outros 123 para a capacitação de profissionais são suficientes. Ou se deve, o governo, investir permanente na pesquisa, através do incentivo aos cientistas que lutam contram a falta de recursos nos laboratórios das universidades brasileiras.

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