Males antigos




Quando os problemas não são resolvidos a seu tempo, acabam explodindo lá adiante. As justificativas, então, passam a estribar-se em fatos presentes, mas é na negligência do passado que eles repousam. Agora, para dar reajuste aos professores e demais servidores em greve, o governo estadual cita as limitações impostas pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) e a necessidade de reestruturar o plano de carreira, cargos e salários (PCCS). Também necessita de aprovação da Assembléia Legislativa – presentemente em recesso – para essa reestruturação e a correspondente alteração orçamentária, ou não haverá dotação para cobrir o aumento pedido. Ressalte-se que no final da tarde de ontem, ainda na condição de governadora em exercício, a vice Emília Belinati apresentou propostas aos grevistas, entre elas a de solicitar ao Legislativo urgência na votação do PCCS.
Tudo certo, em face da legislação, mas seis anos se passaram sem que o governo se preocupasse com o baixo ganho desses servidores. Os deputados estaduais, então, estes parecem nem existir, pois são alheios a tudo, não naturalmente aos próprios interesses. Por outro lado, excesso de funcionalismo, ganhos exorbitantes em alguns segmentos, mordomias, desperdício, corrupção, vieram acumulando déficits, e a máquina pública acabou endividada e pesada demais para auto-sustentar-se.
Faz menos de dois anos que a LRF foi implantada – e daqui para diante as coisas tendem a entrar nos eixos – mas as mazelas do passado estão aí. E seus efeitos não pegaram ninguém de surpresa, pois os governantes sempre souberam o que adviria, mas até aqui vigorou a lei da liberalidade e da transferência dos problemas para os governos seguintes. Quando acontece a reeleição, caso do atual governo paranaense, o seguinte é ele mesmo...
A prodigalidade do governo foi sempre abundante no mau uso do dinheiro e nunca houve preocupação em dar ao organismo governamental a estrutura – também – de empresa, que precisa ter despesa compatível com receita, ou irá à bancarrota. Se o governo tem que ser sensível aos problemas sociais, não pode abandonar políticas gerenciais, ou tornará periclitante o próprio desempenho social.
No caso do Paraná e da greve dos servidores, a realidade é esta, cristalina. O governo não pode agora fazer grandes milagres, depois que veio deixando o barco correr solto. Um mal que não é apenas paranaense mas da maioria dos Estados e do governo federal – todos (assim como os demais Poderes) sujeitos doravante ao garrote da Lei de Responsabilidade Fiscal.
Parece já não haver mais entendimento, a curtíssimo prazo, que ponha fim à greve; ou, em outras palavras, tal não ocorrerá por essa via, no momento. A solução, então, é aguardar prazos e retornar ao trabalho, porque essa providência vai depender apenas de uma das partes do processo: os grevistas.
Muitos dos professores querem retornar às aulas, então que eles o façam, mesmo que à revelia dos comandos sindicais. Se os males governamentais do passado agora chegam ao ponto de combustão, a classe dos professores – por natureza culta e, por dever de ofício, mais politizada – deve usar do bom senso, o que não significa capitular, porque as negociações e pressões devem prosseguir.
E agora que as coisas ficaram definidas – com a possibilidade de progresso nas negociações ainda distante, em face das razões expostas – há que retomar o caminho do bom senso, e este aponta para a volta aos postos de trabalho. Os 38 mil universitários e a comunidade aplaudirão essa decisão, e o governo se sentirá na obrigação de cumprir sua promessa e entrar com a parte que lhe compete.
Mais protestos públicos serão apenas exercício de marquetização da greve, bem ao gosto das lideranças sindicais, que fazem das manifestações ruidosas e das paralisações do trabalho a sua grande afirmação mas violentam direitos alheios quando se excedem e não têm o suficiente grau de cidadania para perceber.

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